Velha Louca

(2025) ‧ 1h38

07.05.2026

Quando o terror vem da sala ao lado

Velha Louca parte de uma ideia simples, mas bastante eficiente: transformar uma figura normalmente associada à fragilidade em uma ameaça imprevisível. O filme brinca constantemente com essa inversão, usando a presença de Carmen Maura para criar um horror desconfortável que mistura humor ácido, tensão psicológica e violência gráfica sem nunca perder o controle do próprio absurdo.

A trama se desenvolve quase inteira dentro da velha mansão de Alicia, criando uma atmosfera claustrofóbica que funciona muito bem. Desde o momento em que Pedro entra na casa durante a tempestade, existe uma sensação crescente de que algo está profundamente errado. A direção de Martín Mauregui sabe explorar corredores apertados, objetos antigos e silêncios desconfortáveis para transformar o ambiente em uma armadilha sufocante.

Grande parte do sucesso do filme vem justamente de Carmen Maura. A atriz entrega uma personagem tão divertida quanto perturbadora, alternando momentos de fragilidade com surtos de manipulação e crueldade que tornam Alicia impossível de prever. Existe um brilho irônico em sua atuação que impede Velha Louca de cair em um terror convencional. Mesmo nos momentos mais violentos, o filme mantém um humor sombrio bastante particular.

Daniel Hendler também funciona muito bem como contraponto. Seu Pedro é praticamente um homem comum preso dentro de um pesadelo cada vez mais absurdo, e o ator consegue equilibrar desespero, confusão e um certo timing cômico sem exagerar. A dinâmica entre os dois sustenta boa parte da narrativa, especialmente porque o roteiro brinca o tempo inteiro com a dúvida sobre o que é delírio, manipulação ou verdade.

Ao mesmo tempo, o longa encontra espaço para temas mais desconfortáveis ligados à velhice, memória e decadência familiar. A demência de Alicia nunca aparece apenas como ferramenta de roteiro; ela também cria uma instabilidade emocional constante, tornando impossível saber até que ponto suas lembranças são reais ou apenas fragmentos distorcidos do passado. Isso dá ao filme uma camada psicológica interessante por trás do humor macabro.

Nem tudo funciona perfeitamente. Algumas revelações acabam sendo menos impactantes do que parecem prometer, e o roteiro não aprofunda tanto certas ideias envolvendo os segredos familiares e o passado da personagem. Existe uma sensação de que o filme poderia explorar ainda mais suas ambiguidades psicológicas em vez de recorrer ocasionalmente ao choque explícito.

Mesmo assim, Velha Louca diverte justamente por abraçar sua natureza exagerada sem vergonha. É um terror eficiente, perversamente engraçado e conduzido por uma atuação central magnética. Talvez não seja um filme particularmente profundo, mas sabe exatamente como transformar desconforto em entretenimento sombrio e bastante divertido.

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AUTOR

Felipe Fornari

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