100 Noites de Desejo

(2025) ‧ 1h32

Histórias proibidas em um reino de sombras

Felipe Fornari

100 Noites de Desejo mergulha em uma fantasia medieval que usa o romantismo, o erotismo e a narrativa fantástica para discutir poder, repressão e liberdade feminina. Inspirado em contos clássicos como As Mil e Uma Noites, o longa constrói um universo estilizado e teatral onde as histórias funcionam não apenas como entretenimento, mas como resistência diante de um sistema dominado por homens.

A direção de Julia Jackman aposta fortemente na estética do conto de fadas sombrio. Os figurinos exuberantes, os cenários artificiais e a iluminação carregada ajudam a criar uma atmosfera que parece existir fora do tempo. Existe algo de deliberadamente performático em cada cena, quase como se os personagens soubessem que fazem parte de uma fábula construída para provocar e seduzir o espectador ao mesmo tempo.

Emma Corrin entrega uma interpretação delicada e misteriosa como Hero, personagem que se torna o verdadeiro coração da narrativa. Sua relação com Cherry, vivida por Maika Monroe, cresce de maneira gradual e íntima, criando uma dinâmica emocional muito mais interessante do que o triângulo amoroso sugerido inicialmente. Monroe também funciona bem ao transmitir a solidão e o vazio de uma mulher presa dentro de um casamento sem afeto.

O roteiro brinca constantemente com as fronteiras entre desejo, identidade e poder. Em 100 Noites de Desejo, homens e mulheres ocupam posições sociais rígidas, mas os sentimentos e os desejos escapam dessas regras o tempo inteiro. A obra encontra força justamente nessa fluidez, permitindo que seus personagens descubram novas formas de conexão enquanto questionam estruturas impostas por aquele universo opressor.

Ao mesmo tempo, o longa nem sempre consegue equilibrar suas muitas ideias. A narrativa frequentemente interrompe o fluxo principal para mergulhar em histórias paralelas e reflexões metalinguísticas sobre o ato de contar histórias. Embora algumas dessas digressões sejam visualmente interessantes, elas acabam diminuindo o ritmo e enfraquecendo parte da tensão dramática construída entre os protagonistas.

Nicholas Galitzine interpreta Manfred com um carisma arrogante que funciona dentro da proposta quase caricatural do filme. Já Richard E. Grant, mesmo em participação menor, ajuda a reforçar o tom fantasioso e teatral da produção. Todo o elenco parece entender perfeitamente a delicada linha entre o exagero estilizado e a sinceridade emocional que o longa tenta sustentar.

Mesmo irregular em certos momentos, 100 Noites de Desejo conquista pela personalidade. É um filme que mistura romance queer, fantasia medieval e comentário social sem medo de soar estranho ou excessivamente estilizado. Quando encontra equilíbrio entre suas ideias e seus sentimentos, entrega momentos genuinamente bonitos e reafirma o poder das histórias como instrumento de sobrevivência, desejo e transformação.

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