O Mez da Grippe

(2026) ‧ 1h25

“O Mez da Grippe” ganha muito em não querer ser apenas uma adaptação e sim uma leitura performática dentro do universo de Valêncio Xavier

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

Talvez uma das questões mais existenciais entre a literatura e o cinema seja: como adaptar um livro? Há quem diga que fidelidade é tudo e há quem diga que a adaptação/inspiração sempre vai ser uma leitura possível dentre muitas. Eu sou do time que acha enfadonho uma adaptação fílmica ser “exatamente” o que o livro traz. Para isso eu já li o livro, construí minha própria experiência de leitora. No seu único texto – até então – sobre cinema, Virginia Woolf, lá nos anos de 1930 (falando de O Gabinete do Dr. Caligari), também se questiona se a narrativa cinematográfica tem que querer se equiparar à literária e, na prática, a resposta é não, independente se há concordância pessoal.

Um dos nomes mais instigantes sobre processos entre literatura e imagem foi Valêncio Xavier, escritor radicado em Curitiba, fundador da cinemateca da cidade e uma grande figura. Não apenas em seu mais famoso O Mez da Grippe, mas também em Maciste no Inferno e O Mistério da Prostituta Japonesa e Mimi-Nashi-Oichi, o autor levou muito a sério o seu projeto de fazer narrativas-kinema, como ele chamava. Em O Mez da Grippe, usando toda a variedade possível de arquivo – que fundam, no imaginário, uma ideia de “factual” – ele propõe histórias muito particulares da gripe espanhola, em Curitiba. Um livro profundamente imagético, mas calcado na construção literária de fabular diante do arquivo, algo bastante corriqueiro (ainda bem) no cinema contemporâneo. Por isso mesmo, uma possível adaptação para o cinema desse livro sempre foi vista como algo corajoso, ousado mesmo, por parte de quem o fizesse. Afinal, o que fazer em movimento com tantas imagens montadas dentro de um livro?

Como comprova a versão de William Biagioli e equipe para O Mez da Grippe, o segredo está na montagem e na fabulação diante do arquivo. Inspirado no romance de Xavier, William, como roteirista, acrescenta uma camada de ficção para que o livro escrito funcione mais como um dispositivo dentro do mundo da narrativa-kinema, e menos alguma espécie de fidelidade ao autor e à obra. Aqui, há uma lealdade diante da proposta de montar uma narrativa que exista no limiar literário e imagético da obra de origem.

Usando material de arquivo de órgãos paranaenses de manutenção da memória – como a Casa da Memória e a Cinemateca – O Mez da Grippe brinca com a lembrança coletiva de Curitiba e regiões próximas. Ao fabular fitas e material de um professor dos anos de 1970, incubido de pesquisar mais a fundo a relação da cidade com a gripe espanhola, William joga o jogo de Valêncio Xavier, abrindo uma fenda na interpretação da história e ficcionalizando imagens que poderiam ter sido relegadas aos porões de instituições. O filme consegue sustentar o enigma de uma proposta fabular, montando imagens reais da década de 1920 – incluindo fotos fantásticas e insólitas de pessoas desconhecidas – entremeadas a uma perspectiva de investigação em cenas filmadas cem anos depois em película e com ótima direção de arte e posterior edição de som e outros trabalhos manuais de profissionais. Um filme, com certeza, sobre as possibilidades incríveis do processo e do trabalho criativo humano.

Apesar do filme elaborar diante de fragmentos de imagens, há uma história narrativa correndo por baixo, de busca quase enlouquecedora de um pesquisador diante do seu tema. Com tons de “causos” e imagens espectrais, o filme é uma ótima pedida para conhecer outras Curitibas e Paranás de arquivo, fora da higiênica versão européia que muitas vezes é lançada.

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