Vamos pensar em duas cenas clássicas de filmes: na primeira, um casal está em casa, tentando cozinhar lagostas, mas as lagostas estão dando um baile nos dois; e na segunda, um cara está desarmando uma bomba, com diversos soldados ao redor aguardando, em um ambiente devastado pela guerra. Você conseguiria dizer qual cena foi dirigida por um homem e qual por uma mulher? Não, né? Eu só sei porque tenho os filmes em mente (o primeiro é Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen, e o segundo é Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow), mas não dá. E as diretoras entrevistadas para o documentário Diretore/as também não. E neste documentário você poderá saber um pouco mais sobre a participação das mulheres no cenário cinematográfico francês, suas dificuldades, acertos e projetos futuros.

O interessante desse curto documentário (ele tem 1h15 de duração) é a maneira como ele é estruturado. Julie Gayet (O Palácio Francês) entrevista 21 diretoras francesas, tentando averiguar de que maneira as questões de gênero participam do cinema na França. A princÃpio, o grupo de mulheres é firme em dizer que não sofrem preconceito por serem mulheres diretoras. Uma delas, Rebecca Zlotowski (Grand Central), conta que sofre preconceito em outros nÃveis, como o intelectual ou baseado em seu background, mas não por ser mulher. E todas afirmam veementemente que não concordam com cotas, dizem que elas não são necessárias e que sentem vergonha quando entram por cota em algum festival, por exemplo. E logo após todo o discurso de “somos todos tratados iguaisâ€, Gayet vai questionando, questionando, e de repente a coisa muda de figura.

Depois de tanto afirmar que não há preconceito com relação a gênero no cinema francês, as diretoras começam a achar alguns problemas. Elas citam que encontram dificuldades se têm interesse em fazer um filme diferente do que é considerado tradicionalmente um “gênero feminino”, como os dramas familiares. Assim, se decidem fazer um western, um filme policial, de guerra ou sci-fi, encontram resistência por parte da equipe, que tem problemas em aceitar uma mulher fazendo um filme fora do seu habitat. E as diretoras entrevistadas ficam até mesmo curiosas em saber como Kathryn Bigelow se saiu em seus filmes de guerra.

Entre dificuldades e sucessos, o documentário aborda diversas questões, como maternidade, famÃlia, feminilidade, ter que provar que sabe, ter que mostrar que merece estar ali, além de desejos e aspirações dessas incrÃveis diretoras, algumas que acabaram que começar suas carreiras e outras que já estão há muitos anos fazendo filmes e lidando com o dia a dia da profissão. E todas são unânimes em falar sobre a importância de trilhar um caminho melhor para as gerações futuras através de seus exemplos.

Vale a pena dar uma espiada neste interessante documentário. Apesar de começar um pouco devagar, ele pega ritmo e traz muitos questionamentos importantes, principalmente porque as questões vividas pelas diretoras francesas fazem parte do dia a dia de mulheres ao redor do globo. E ver que mulheres em um paÃs tão desenvolvido quanto a França enfrentam questões parecidas com as nossas nos faz pensar que ainda temos um longo caminho para que as questões de gênero sejam resolvidas.
Nota:

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Softie
Softie, filme do diretor francês Samuel Theis, que já teve exibição por aqui no começo do ano, na edição do My French Film Festival, agora chega no circuito com um enredo cuidadoso sobre crescer e amadurecer diante da constatação de que ter um corpo é algo complexo...




