Deixe-se embalar por esse longa que não é um musical, mas tem a música como seu fio condutor, mostrando como esse tipo de arte pode ser responsável por transformações tão significativas.
Cecília (Tecla Insolia) é uma jovem que mora no Conservatório Ospedale della Pietà, em Veneza. O local é famoso por receber meninas órfãs e educá-las na arte da música, ensinando instrumentos variados e canto até que estejam prontas para casar-se, momento em que abandonam a prática e se dedicam exclusivamente à vida matrimonial. Cecília toca violino desde jovem e anseia pelo dia em que deixará o conservatório para finalmente viver sua própria vida. Porém, ao conhecer o novo compositor e maestro responsável pelas aulas e apresentações do grupo, ninguém menos que Antonio Vivaldi (Michele Riondino), sua perspectiva muda completamente.

Dirigido por Damiano Michieletto em sua estreia no cinema, com roteiro inspirado no romance Stabat Mater, de Tiziano Scarpa, Primavera, novo longa da Paris Filmes, encontra na música muito mais do que uma trilha sonora. Ela é uma narradora silenciosa, conduzindo a história com a mesma delicadeza com que Vivaldi conduz suas composições e influenciando os personagens de maneira quase invisível.
Essa sensibilidade também aparece em pequenos detalhes espalhados pela narrativa. A família de gatinhos vista logo no início funciona como um paralelo à vida das órfãs acolhidas pelo conservatório. Mais adiante, o simples gesto de retirar uma máscara finaliza um mistério e começa outro, lembrando que toda identidade revelada também tráz consequências. Há ainda momentos como a chegada de uma mãe para buscar sua filha, cenas breves que ajudam a construir um retrato sensível das relações, da liberdade e das escolhas possíveis, ou não, para aquelas mulheres.

Os personagens são outro grande acerto. Todos encontram espaço para existir além de suas funções na trama, revelando camadas que tornam suas histórias ainda mais envolventes.
Ao final, fica a vontade de aprender um instrumento, como se essa fosse uma maneira de ouvir o filme com ainda mais profundidade. E também surge o desejo de caminhar por Veneza, imaginando quantas histórias de liberdade, renúncia, culpa e ousadia permanecem escondidas entre suas construções. Primavera transforma a música em linguagem e faz dela um convite para refletir sobre o poder da arte de mudar destinos, mesmo quando o mundo insiste em determiná-los antes do tempo.







