A atriz francesa Sarah Bernhardt foi uma das mulheres mais famosas do final do século XIX e início do XX. Digamos que, com as devidas proporções, ela foi como a Madonna da sua época. Foi uma mulher livre em praticamente todos os sentidos: tinha independência financeira, se permitia ter gostos e interesses excêntricos e peculiares – como uma coleção de animais selvagens, por exemplo –, além de ter viajado para muitos cantos do mundo, incluindo o Brasil (e cidades do interior do país, como Campinas, em São Paulo), o que foi representado em Amélia, filme de 2000, de Ana Carolina. Também viveu total liberdade em suas relações, fosse enquanto amizade ou no desejo e amores sexuais. Homens, mulheres, casamento uma única vez e um filho, que foi a motivação para se tornar atriz em uma época que isso significava muitas coisas. Por tudo isso, é difícil de engolir o que o diretor francês Guillaume Nicloux – juntamente com a roteirista Nathalie Leuthreau, com quem trabalha há um bom tempo – propõe em A Divina Sarah Bernhardt, um longa que tenta retratar alguns momentos da vida da atriz.

Ao decidirem trazerem Bernhardt para as telas pela via da excentricidade – que vem acompanhada do exagero, do deboche e da linha tênue com o descompasso, que tantas vezes levou mulheres à loucura – e do seu amor leal (jamais fiel) pelo dramaturgo Lucien Guitry (Laurent Lafitte), a atriz acaba se tornando uma típica histérica da virada entre os séculos. Escolher contar a vida de uma atriz – que interpretou tantos papéis masculinos como o Hamlet, de Shakespeare, e movimentava plateias pelo mundo, mesmo atuando em francês – pela sua faceta excêntrica apaixonada, talvez seja um dos desserviços mais ofensivos em relação à história de uma artista desta envergadura.
Nas primeiras cenas de A Divina Sarah Bernhardt temos o privilégio de vê-la no princípio da história do cinema, com sua cabeleira ruiva escura e jeito de bruxa da belle époque. Vemos imagens reais dela atuando e movimentando a plateia. Em seguida, somos levadas a uma cena ficcional de uma Sarah já doente, habilmente personificada por Sandrine Kiberlain. Porém, logo a caricatura toma conta e não vemos mais a atriz fazer o que melhor sabia: atuar. Neste longa, de uma direção de arte realmente impecável, Bernhardt não atua, apenas performa sua vida privada sendo grosseira e mimada. Ficamos aguardando o filme inteiro, mas recebemos apenas cenas angustiantes de uma mulher enciumada de não ser a amante favorita de Guitry.

Apesar de também ser retratada sua relação com a pintora Louise Abbéma (a ótima Amira Casar) – conhecida por usar roupas masculinas e ser também uma importante figura do período –, isso soa apenas como uma nota de rodapé para seu “verdadeiro amor” por um homem. Além disso, a exploração de como a vida errante da atriz a conduz para a cadeira de rodas, e uma rápida decadência de saúde, também não colabora em nada com o retrato proposto em A Divina Sarah Bernhardt. Realmente, uma pena ver um filme tão pavoneado, com uma direção de arte caprichada, ser tão medíocre em relação a instigar espectadoras sobre a vida de uma das primeiras estrelas do cinema e teatro, famosa no mundo inteiro. Ainda bem que a própria Sara Bernhardt deixou uma vasta obra, incluindo uma autobiografia já publicada no Brasil. Seguimos esperando um interesse maior pelo que de fato mulheres como ela fizeram no que eram melhores, não no que os tablóides negligenciadores falavam delas.








