Se Eu Fosse Você 3

(2026) ‧ 1h59

A fórmula já não cabe mais no corpo

Felipe Fornari

Se Eu Fosse Você 3 retorna a uma premissa que já havia sido explorada duas vezes e, agora, tenta encontrar uma nova geração para ocupar os corpos trocados. Vinte anos depois, Cláudio e Helena continuam juntos, enquanto Bia, a filha do casal, construiu sua própria vida ao lado de Aquiles. Quando a velha confusão sobrenatural volta a acontecer, a franquia ganha a oportunidade de atualizar sua ideia central. Infelizmente, boa parte do filme parece mais preocupada em repetir uma fórmula conhecida do que em descobrir o que poderia haver de novo nela.

A primeira metade é especialmente problemática. A narrativa demora a encontrar ritmo, os diálogos parecem frequentemente escritos apenas para conduzir os personagens à próxima situação e a direção de Daniel Filho mantém uma aparência visual excessivamente genérica. Mesmo a dinâmica familiar, que poderia estabelecer rapidamente uma nova identidade para a história, recebe pouco desenvolvimento. Quando a troca finalmente acontece, o filme melhora porque a própria premissa passa a gerar situações concretas, mas é difícil ignorar quanto tempo foi gasto até chegar ao ponto em que a comédia realmente pode começar.

Cleo Pires e o restante do elenco encontram algumas oportunidades interessantes para brincar com a inversão de personalidades, sobretudo porque Bia e Aquiles precisam convencer as pessoas ao redor de que continuam sendo eles mesmos. O problema é que o humor frequentemente retorna aos mesmos contrastes de gênero dos filmes anteriores. Homens não saberiam lidar com determinadas tarefas femininas, mulheres teriam dificuldades diante de atividades consideradas masculinas e assim por diante. Depois de tantos anos, essas piadas soam menos como uma observação divertida sobre diferenças individuais e mais como uma repetição automática de estereótipos.

É quando a troca passa a interferir diretamente na rotina profissional dos personagens que Se Eu Fosse Você 3 finalmente encontra uma utilização mais interessante de sua própria ideia. Colocar alguém que não conhece esportes radicais diante de uma atividade que envolve altura, enquanto outra pessoa precisa assumir uma cozinha profissional, cria dificuldades que não dependem apenas de características de gênero. São pessoas obrigadas a experimentar literalmente uma rotina que não compreendem. A situação poderia ter sido explorada ainda mais, mas ao menos transforma a velha premissa em uma fonte de conflito mais específica.

A relação entre Cláudio e Helena também se beneficia dessa escolha, mesmo que o filme não esconda por nenhum instante para onde pretende levá-la. A crise do casal e a necessidade de recuperar a capacidade de enxergar o outro são soluções narrativas previsíveis, mas aqui existe alguma coerência entre mensagem e mecanismo. O problema é que o longa parece incapaz de aprofundar essa ideia quando ela deixa de produzir uma situação cômica. Tudo é resolvido com rapidez, e conflitos que poderiam conferir maior peso emocional à história são simplificados para manter a leveza da produção.

Também pesa contra o filme a comparação inevitável com seus antecessores. Se Eu Fosse Você e Se Eu Fosse Você 2 já haviam estabelecido uma linguagem baseada principalmente no carisma de Tony Ramos e Glória Pires e no humor físico provocado pela troca de corpos. A terceira parte tenta seguir por outro caminho, mas não encontra uma personalidade suficientemente forte para justificar sua existência. Quando funciona, demonstra que ainda há possibilidades na premissa; quando retorna às fórmulas mais gastas, apenas evidencia o quanto a série envelheceu sem conseguir se reinventar.

No fim, Se Eu Fosse Você 3 é uma comédia que melhora conforme avança, mas nunca consegue superar a sensação de que chegou tarde demais à própria ideia. Há situações genuinamente divertidas, algumas boas interações do elenco e uma utilização mais coerente da troca de corpos na parte final. Ainda assim, a primeira metade pouco inspirada, o humor baseado em estereótipos e a falta de uma identidade própria pesam bastante. Depois de duas décadas, talvez a maior dificuldade da franquia seja justamente esta: para continuar trocando de corpos, primeiro seria preciso encontrar uma nova maneira de pensar.

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