Se Eu Fosse Você

(2006) ‧ 1h34

Troca de corpos, pouca criatividade

Felipe Fornari

Se Eu Fosse Você parte de uma premissa que, em mãos mais inventivas, poderia render uma comédia divertida sobre intimidade, rotina e as diferenças entre duas pessoas que acreditam conhecer profundamente uma à outra. Cláudio e Helena estão presos aos pequenos desgastes de um casamento longo quando, depois de uma discussão, acordam ocupando os corpos um do outro. A ideia é simples e imediatamente compreensível, mas o filme também deixa claro desde cedo que pretende extrair humor de situações bastante previsíveis.

O problema é que a troca de corpos quase nunca produz consequências realmente surpreendentes. Cláudio precisa lidar com o coral de Helena, enquanto ela assume responsabilidades na agência de publicidade do marido, e as dificuldades encontradas pelos dois seguem um caminho bastante óbvio. Em vez de explorar as possibilidades absurdas da situação, o roteiro frequentemente utiliza a premissa apenas para confirmar ideias prontas sobre homens, mulheres e casamentos. A sensação é de que o filme chega às conclusões antes mesmo de desenvolver as situações que deveriam conduzi-lo até elas.

Tony Ramos e Glória Pires são, sem dúvida, o principal motivo para acompanhar a produção. Os dois possuem presença e experiência suficientes para sustentar cenas que, no papel, parecem muito menos engraçadas do que deveriam ser. Há momentos em que a troca de corpos funciona justamente porque os atores conseguem incorporar pequenos gestos, maneiras de falar e comportamentos associados ao parceiro. Quando essa dinâmica aparece, surge uma comédia mais física e espontânea, que poderia ter sido muito mais explorada.

Infelizmente, o roteiro parece pouco interessado em confiar nesses intérpretes. Muitas situações são acompanhadas por explicações excessivas, diálogos que anunciam sentimentos já evidentes e uma moralidade bastante mastigada. A relação do casal passa por uma transformação previsível: cada um precisa experimentar a rotina do outro para perceber que seus próprios problemas não são os únicos importantes. A ideia até poderia funcionar dentro de uma comédia familiar, mas o filme raramente encontra uma maneira original de desenvolvê-la.

A direção de Daniel Filho também contribui para essa sensação de televisão estendida. Os enquadramentos são frequentemente convencionais, com excesso de closes e pouca preocupação em transformar os espaços em elementos da comédia. Algumas escolhas de montagem e de trilha sonora reforçam emoções que a cena já deveria conseguir produzir sozinha. Quando o filme tenta ampliar seu registro, como na sequência musical envolvendo os personagens, o resultado chega mais perto do constrangimento do que da surpresa.

Ainda assim, Se Eu Fosse Você está longe de ser completamente desprovido de charme. A química entre Tony Ramos e Glória Pires ajuda a criar alguns momentos genuinamente simpáticos, e determinadas situações conseguem encontrar graça justamente na estranheza de observar um interpretando os trejeitos do outro. O problema é que esses acertos aparecem de maneira muito irregular, cercados por uma estrutura que parece satisfeita em reproduzir fórmulas conhecidas em vez de descobrir novas possibilidades para elas.

Se Eu Fosse Você funciona melhor como uma comédia confortável do que como uma experiência realmente inventiva. Existe uma premissa potencialmente engraçada, dois protagonistas capazes de carregá-la e alguns bons momentos espalhados pelo caminho, mas falta ao conjunto o ritmo, a ousadia e a criatividade necessários para transformar a troca de corpos em algo memorável. O resultado é simpático em alguns momentos, mas excessivamente previsível e pouco inspirado para uma ideia que poderia ter rendido muito mais.

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