Em Pacto Sinistro, Alfred Hitchcock transforma um encontro casual em uma armadilha construída sobre desejos que talvez jamais devessem ser pronunciados. Durante uma viagem de trem, o tenista Guy Haines (Farley Granger) conhece Bruno Antony (Robert Walker), um estranho excessivamente interessado em sua vida particular. Sabendo que Guy deseja se livrar do casamento com Miriam (Kasey Rogers) para seguir sua relação com Anne Morton (Ruth Roman), Bruno propõe aquilo que considera um plano perfeito: cada um assassinaria a pessoa que atrapalha a vida do outro. Sem motivos aparentes ligando criminosos e vítimas, não haveria suspeitos. Guy trata a ideia como delírio; Bruno, porém, interpreta sua reação como a confirmação de um pacto.
A premissa baseada no romance de Patricia Highsmith permite a Hitchcock explorar uma de suas obsessões mais fascinantes: a transferência da culpa. Se em Decadência um inocente assumia as consequências do erro de outra pessoa por lealdade, aqui essa contaminação se torna muito mais perturbadora porque Bruno realiza aquilo que Guy, em algum nível, desejava. Ele não precisa pedir explicitamente pela morte de Miriam para se beneficiar dela, e é justamente nessa região moralmente nebulosa que o filme encontra sua força. Guy e Bruno tornam-se duas possibilidades de um mesmo impulso: um reprime aquilo que sabe ser inaceitável, enquanto o outro não reconhece qualquer fronteira entre fantasia e ação.

Essa duplicidade está inscrita desde os primeiros planos. Hitchcock acompanha dois pares de sapatos caminhando em direções diferentes até que seus donos se encontram no trem, onde as pernas dos homens se cruzam e dão início à relação que sustentará toda a narrativa. Pares, cruzamentos, reflexos e movimentos opostos reaparecem continuamente, como se Guy e Bruno estivessem presos a uma simetria que nenhum deles consegue romper. O contraste entre os personagens também é delicioso: enquanto Guy procura preservar a imagem pública de atleta respeitável e futuro integrante de um universo político privilegiado, Bruno exibe sua excentricidade sem constrangimento, invadindo espaços e relações com a confiança de quem não reconhece limites.
Robert Walker faz dessa ausência de limites uma das grandes performances da filmografia hitchcockiana. Seu Bruno é charmoso, divertido e assustador porque raramente precisa parecer ameaçador para produzir medo. O assassinato de Miriam em um parque de diversões sintetiza brilhantemente essa combinação. Em meio a luzes, música e entretenimento, Bruno segue a jovem até estrangulá-la, enquanto Hitchcock registra o crime refletido nas lentes dos óculos caídos no chão. A imagem distorcida transforma violência em espetáculo e estabelece o parque como uma espécie de território particular de Bruno, onde diversão e morte convivem com uma naturalidade profundamente inquietante.
A relação entre os dois homens carrega ainda uma intimidade que ultrapassa a chantagem. Produzido em uma época na qual a homossexualidade não poderia ser abordada abertamente pelo cinema hollywoodiano, Pacto Sinistro constrói entre Guy e Bruno uma espécie de sedução codificada. Bruno conhece detalhes da vida do tenista, busca sua atenção, exige reciprocidade e reage à rejeição quase como alguém traído por um amante. Hitchcock transforma o suposto acordo em vínculo indissolúvel: quanto mais Guy tenta afastá-lo, mais Bruno penetra em sua vida. A aparição silenciosa do personagem entre espectadores de uma partida de tênis, imóvel enquanto todas as outras cabeças acompanham a bola, é suficiente para revelar quanto sua presença já se tornou uma obsessão impossível de ignorar.

Essa capacidade de atribuir tensão a gestos e objetos aparentemente banais atinge seu auge com o isqueiro esquecido por Guy no trem. O pequeno objeto passa de lembrança pessoal a possível prova de assassinato, sustentando uma extraordinária corrida contra o tempo enquanto Hitchcock alterna a partida de tênis de Guy com a tentativa de Bruno de recuperar o isqueiro que pretende plantar no local do crime. É especialmente perverso perceber que o diretor consegue nos fazer torcer momentaneamente para que Bruno consiga recuperá-lo quando ele cai em um bueiro, ainda que saibamos exatamente como pretende utilizá-lo. O clímax no carrossel descontrolado leva essa lógica ao limite, convertendo o parque de diversões em um pesadelo no qual tudo gira vertiginosamente ao redor de dois homens que jamais deveriam ter se encontrado.
Pacto Sinistro é Hitchcock em domínio absoluto sobre aquilo que faria de seu cinema uma referência incontornável do suspense: uma premissa imediatamente compreensível transformada em complexo jogo psicológico, visual e moral. Mais do que perguntar se Guy conseguirá provar sua inocência, o filme coloca em dúvida a própria simplicidade dessa inocência, pois Bruno funciona como materialização dos desejos que seu adversário jamais admitiria realizar. Ao fazer do vilão o personagem mais magnético da história, Hitchcock também compromete nossa posição como espectadores: tememos Bruno, somos fascinados por ele e, em determinados momentos, desejamos que tenha sucesso. O verdadeiro pacto sinistro, assim, não existe apenas entre os dois homens. Por quase duas horas, também somos silenciosamente convidados a participar dele.








