Da Magia à Sedução

(1998) ‧ 1h43

Entre feitiços, irmandade e corações partidos

Felipe Fornari

Da Magia à Sedução começa como um conto sobre mulheres condenadas a pagar pelo amor. Há gerações, uma maldição acompanha a família Owens: qualquer homem que ame uma de suas mulheres está destinado a morrer prematuramente. Criadas pelas excêntricas tias Jet e Frances, as irmãs Sally e Gillian respondem de maneiras opostas a essa herança. Sally deseja normalidade e tenta manter a magia distante de sua vida, enquanto Gillian abraça impulsos, paixões e aventuras. A oposição oferece ao filme um bom ponto de partida para falar sobre duas mulheres tentando escapar de um destino herdado, embora nem sempre a narrativa saiba exatamente qual história deseja contar.

Sandra Bullock e Nicole Kidman são fundamentais para manter essa mistura funcionando. Bullock encontra em Sally a vulnerabilidade de alguém que passou a infância temendo o amor e, depois de experimentar uma felicidade aparentemente impossível, vê a maldição confirmar seus piores receios. Kidman transforma Gillian em seu contraponto: espontânea, sensual e inquieta, ela passa anos procurando justamente as experiências das quais a irmã tenta fugir. A relação entre ambas é mais convincente do que qualquer romance do filme. Mesmo separadas por escolhas completamente diferentes, existe entre elas uma intimidade capaz de sobreviver à distância, ao ressentimento e, como logo descobrimos, até mesmo a cadáveres inconvenientes.

É quando Jimmy Angelov entra definitivamente na história que o longa realiza sua mudança mais brusca. O relacionamento abusivo de Gillian conduz as irmãs a uma situação de violência que termina com Jimmy morto, ressuscitado através de magia e transformado em ameaça sobrenatural. Há ideias divertidas nessa escalada absurda, especialmente quando Sally e Gillian precisam lidar com as consequências de uma decisão tomada em pânico. O problema está no equilíbrio: violência doméstica, comédia macabra, possessão demoníaca e romance passam a disputar espaço dentro do mesmo filme. A variedade poderia ser uma qualidade, mas a direção de Griffin Dunne nem sempre encontra transições capazes de fazer esses registros parecerem partes da mesma produção.

A chegada do investigador Gary Hallett acrescenta outra camada ao já congestionado enredo. Aidan Quinn possui uma presença suficientemente discreta para não transformar Gary em príncipe encantado convencional, e sua aproximação com Sally recupera o desejo infantil dela por um homem tão específico que supostamente jamais poderia existir. O recurso é previsível, mas funciona dentro da lógica de uma história interessada em perguntar se tentar evitar o amor não seria apenas outra maneira de permanecer governado pelo medo. Ainda assim, o romance recebe menos desenvolvimento do que precisava, principalmente porque a investigação sobre Jimmy precisa dividir atenção com a maldição familiar, a possessão de Gillian e a reconstrução emocional de Sally.

Visualmente, porém, existe um encanto difícil de ignorar. A casa das Owens parece existir ligeiramente afastada do mundo real, repleta de plantas, poções, velas e objetos capazes de transformar magia em parte da rotina doméstica. Dianne Wiest e Stockard Channing aproveitam essa atmosfera como Jet e Frances, tratando feitiços com a naturalidade de quem prepara o café da manhã. São personagens que poderiam ocupar ainda mais espaço, pois representam uma possibilidade particularmente atraente do universo criado pelo filme: mulheres que deixaram de pedir desculpas por serem diferentes. Em contraste, Sally passa boa parte da história tentando esconder aquilo que é para conseguir a aceitação de uma comunidade que já decidiu enxergá-la com desconfiança.

É justamente quando essa comunidade feminina ganha importância que o filme encontra sua melhor ideia. A solução do conflito não depende apenas de um interesse romântico ou de alguma demonstração extraordinária de poder individual, mas da união entre mulheres. Aquilo que inicialmente alimentava fofocas e preconceitos torna-se instrumento de solidariedade, enquanto Sally compreende que rejeitar a magia significa rejeitar parte de si mesma. Nesse sentido, a maldição funciona melhor como metáfora do que como mecanismo narrativo: gerações de mulheres carregam traumas herdados e precisam encontrar uma maneira de interromper um ciclo que parecia inevitável. O filme poderia explorar essa dimensão com maior profundidade, mas há sinceridade suficiente para que ela permaneça.

Da Magia à Sedução é um filme irregular cuja personalidade acaba sendo maior do que sua organização narrativa. Romance, comédia, fantasia e terror sobrenatural nem sempre convivem harmoniosamente, a trilha sonora por vezes tenta determinar emoções que as cenas ainda não conquistaram e algumas soluções chegam com facilidade excessiva. Ao mesmo tempo, Bullock e Kidman constroem uma relação afetiva capaz de sustentar as mudanças de tom, Wiest e Channing tornam irresistível o cotidiano mágico das Owens e a atmosfera aconchegante oferece ao filme uma identidade que explica parte de sua permanência no imaginário popular. No fim, sua magia mais convincente não está nas poções, nos feitiços ou nas ressurreições, mas na ideia de que algumas maldições só podem ser quebradas quando uma família decide enfrentá-las em conjunto.

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