Em Um Barco e Nove Destinos, Alfred Hitchcock reduz a Segunda Guerra Mundial às dimensões de um bote à deriva no Atlântico. Depois que um navio é torpedeado por um submarino alemão e as duas embarcações acabam destruídas, sobreviventes de diferentes origens precisam dividir um espaço no qual não existe possibilidade de afastamento. A situação se torna ainda mais delicada quando resgatam Willi, alemão que afirma ser apenas um tripulante do submarino inimigo. Hitchcock transforma esse encontro improvável em um microcosmo do conflito, substituindo exércitos e campos de batalha por um grupo obrigado a decidir se diferenças de classe, nacionalidade, raça e ideologia podem ser temporariamente superadas em nome da sobrevivência.
A primeira figura que encontramos é Constance Porter, jornalista interpretada por Tallulah Bankhead com uma combinação de arrogância, inteligência e teatralidade que imediatamente domina o filme. Enquanto outros sobreviventes chegam ao bote praticamente sem nada, ela aparece protegida por um casaco de pele e preocupada com sua câmera, como se ainda estivesse observando a tragédia profissionalmente em vez de vivê-la. Aos poucos, porém, os símbolos de sua posição social começam a desaparecer. Ao redor dela estão marinheiros, uma enfermeira, um empresário, um operador de rádio, um comissário negro e uma mãe traumatizada pela perda do filho. O roteiro organiza deliberadamente o bote como uma pequena amostra de uma sociedade dividida.

Hitchcock realiza um experimento formal particularmente ambicioso ao manter praticamente toda a narrativa dentro desse espaço. Não há a variedade de cenários, perseguições ou arquiteturas que normalmente alimentam seu suspense; existem apenas água, corpos e alguns metros de madeira. Ainda assim, o diretor encontra maneiras de reorganizar continuamente as relações visuais entre os personagens, utilizando posições dentro do bote para sugerir aproximações, disputas e mudanças de poder. A limitação também cobra seu preço: em determinados momentos, as discussões assumem um caráter excessivamente programático, como se cada personagem precisasse representar uma posição específica dentro do debate proposto pelo filme.
A presença de Willi torna esse debate consideravelmente mais interessante. Walter Slezak evita interpretar o alemão como uma caricatura monstruosa e oferece ao personagem uma cordialidade que torna suas verdadeiras intenções ainda mais inquietantes. Ele possui conhecimentos de navegação, resistência física e uma aparente segurança que nenhum dos demais consegue demonstrar. Em plena guerra, essa caracterização inevitavelmente produz desconforto, pois o nazista parece durante algum tempo o indivíduo mais preparado daquele pequeno grupo. Hitchcock, entretanto, utiliza justamente essa competência como advertência: subestimar o inimigo porque desejamos acreditar em sua fraqueza pode ser uma forma perigosa de ingenuidade.
É quando as mentiras de Willi começam a ser descobertas que Um Barco e Nove Destinos alcança seus momentos mais provocativos. A união necessária para enfrentar o inimigo pode rapidamente se transformar em violência coletiva, e Hitchcock muda nossa posição diante dos personagens sem oferecer conforto moral. A reação do grupo é compreensível diante daquilo que sofreram, mas sua explosão de brutalidade também os aproxima perigosamente daquilo que condenam. Significativamente, Joe, o comissário negro vivido por Canada Lee, mantém-se afastado do ataque, observando enquanto os demais abandonam qualquer aparência de civilidade. A guerra deixa então de ser apenas o conflito que ocorre ao redor do bote para contaminar as relações dentro dele.

Essa riqueza temática convive com algumas limitações evidentes. Os personagens nem sempre ultrapassam as funções sociais que receberam, e certas discussões parecem construídas mais para formular argumentos sobre democracia, fascismo e cooperação do que para revelar seres humanos complexos. Há também um inevitável componente propagandístico próprio do período, ainda que Hitchcock frequentemente torne suas conclusões menos simples do que seria esperado. Depois da extraordinária precisão psicológica de A Sombra de uma Dúvida, seu filme anterior, esta produção soa mais esquemática, embora a própria artificialidade seja parcialmente compensada pela intensidade das situações e pelo trabalho do elenco.
Um Barco e Nove Destinos permanece, portanto, mais fascinante como experiência cinematográfica e provocação moral do que como uma das grandes realizações de Hitchcock. O diretor prova que consegue produzir tensão mesmo eliminando quase todos os recursos tradicionais de uma aventura, enquanto transforma a sobrevivência em questão simultaneamente física, política e ética. Nem todos os personagens possuem profundidade suficiente e algumas ideias são apresentadas de maneira excessivamente direta, mas existe algo genuinamente perturbador na facilidade com que aquele pequeno grupo alterna solidariedade, desconfiança e violência. No meio de um oceano aparentemente infinito, Hitchcock encontra espaço suficiente para perguntar quanto da civilização consegue sobreviver quando as estruturas que a sustentam desaparecem.








