Masha e os Ursos

(2025) ‧ 1h19

Uma floresta onde nada parece encontrar o caminho

Felipe Fornari

Alguns filmes infantis apostam na simplicidade para criar encantamento; Masha e os Ursos parece confundir simplicidade com completo desleixo. A aventura começa com uma premissa perfeitamente funcional para um conto de fadas: depois que seu irmão é transformado em bode por uma criatura da floresta, Masha precisa encontrar uma maneira de desfazer o feitiço. Pelo caminho, cruza com três ursos conhecidos do imaginário popular e descobre um universo habitado por seres mágicos. Havia, portanto, material suficiente para uma pequena fantasia familiar. O que chega à tela, entretanto, é uma produção tão precária em praticamente todos os departamentos que rapidamente deixa de importar para onde essa jornada pretende nos levar.

A tentativa de combinar diferentes histórias tradicionais poderia ao menos produzir um universo divertido, mas os elementos parecem simplesmente jogados uns sobre os outros. Os três ursos, Masha, criaturas folclóricas, maldições e perigos surgem sem que exista uma construção consistente capaz de reuni-los. A narrativa avança aos tropeços, como se cada sequência tivesse sido imaginada separadamente e somente depois alguém tivesse percebido a necessidade de conectá-las. Não há ritmo, progressão dramática ou mesmo uma sensação convincente de descoberta. O filme simplesmente apresenta uma situação, abandona-a e corre para a próxima.

Visualmente, a experiência é ainda mais problemática. Efeitos digitais rudimentares convivem com cenários e criaturas cuja artificialidade impede qualquer possibilidade de imersão. Em vez de utilizar suas limitações como estímulo para soluções criativas, Masha e os Ursos insiste em mostrar justamente aquilo que seus recursos parecem menos preparados para realizar. O resultado frequentemente possui a aparência de material inacabado, com imagens que não se integram adequadamente aos atores e escolhas visuais que variam tanto de uma cena para outra que é difícil identificar uma linguagem estética minimamente uniforme.

As interpretações também pouco ajudam. Os atores parecem desconfortáveis diante daquele universo e raramente conseguem fazer com que diálogos ou relações soem espontâneos. Masha deveria ser o centro emocional da aventura, afinal tudo nasce de sua determinação em salvar o irmão, mas a personagem atravessa acontecimentos sem que o filme consiga estabelecer uma conexão verdadeira entre ela e o público. Mesmo os três ursos, que poderiam funcionar como alívio cômico e dar alguma personalidade à jornada, permanecem presos a uma encenação que transforma quase todas as interações em situações mecânicas.

Mais estranho é perceber como Masha e os Ursos muda de personalidade ao longo do filme. O que começa como uma fantasia infantil relativamente convencional gradualmente assume imagens e atmosferas mais sombrias, quase como se outra produção tivesse invadido o filme pela metade. O problema não está em permitir que uma história para crianças seja assustadora — os próprios contos de fadas sempre compreenderam muito bem o valor do medo —, mas na ausência de controle sobre essa mudança. Em vez de ampliar o perigo naturalmente, o longa simplesmente altera seu registro e cria um contraste tão brusco que parece acidental.

Nem mesmo o humor oferece algum alívio. Piadas físicas, criaturas grotescas e situações construídas para provocar a reação imediata do público infantil aparecem sem timing ou inventividade. Há uma diferença enorme entre assumir deliberadamente o absurdo e simplesmente produzir cenas estranhas, e o longa quase nunca consegue atravessar essa distância. Quanto mais elementos acrescenta à aventura, mais evidente se torna a falta de uma ideia clara sobre o que fazer com eles. Quando finalmente encaminha sua resolução, já existe pouco envolvimento com os personagens ou curiosidade sobre o destino daquela floresta ou seus personagens.

Masha e os Ursos é o tipo de produção em que encontrar qualidades deixa de ser uma questão de generosidade e passa a exigir verdadeiro esforço. A premissa poderia render uma releitura simpática dos contos tradicionais, mas direção, roteiro, interpretações, efeitos e montagem competem para descobrir qual deles compromete mais o resultado. Ainda mais surpreendente é a confiança demonstrada ao sugerir que esse universo poderia continuar em outra aventura. Antes de pensar em retornar à floresta, seria necessário descobrir o caminho que este primeiro filme jamais encontrou.

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