Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira

(2026) ‧ 1h53

Uma cidade assombrada por seus próprios conflitos

Rapha Ritchie

Uma pequena cidade já está suficientemente ocupada destruindo suas próprias relações quando mortos-vivos e vampiros começam a aparecer. A eleição municipal divide vizinhos, famílias e antigos aliados, transforma ressentimentos em combustível político e faz da disputa pelo poder uma espécie de rotina coletiva. Bartira, tratada pelos moradores como apenas mais uma bêbada inconveniente, observa tudo da margem até que justamente os personagens menos levados a sério precisam encarar uma ameaça que ultrapassa a campanha eleitoral.

É nessa aproximação entre o absurdo político e o horror que Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira ganha identidade. O sobrenatural não invade uma comunidade pacífica, mas uma cidade que já estava em conflito muito antes da chegada dos monstros. A eleição reduz grandes discursos a relações pequenas e reconhecíveis, porque quem escolhe um lado no palanque continuará encontrando o adversário na praça, na rua e dentro da própria família.

A sátira evita depender de partidos específicos, o que amplia seu alcance, mas também exige que o comportamento dos personagens sustente aquilo que pretende comentar. O interesse está menos em descobrir quem representa determinada posição política e mais em acompanhar oportunismo, vaidade, ressentimento e a facilidade com que qualquer discussão passa a ser tratada como confronto. Nesse cenário, vampiros e mortos-vivos deixam de ser apenas interrupções fantásticas e passam a conviver com uma cidade cuja normalidade já era suficientemente estranha.

Bartira ocupa uma posição especialmente importante nessa inversão. Enquanto as figuras consideradas respeitáveis concentram energia em disputar influência, aqueles empurrados para a margem acabam mais próximos do problema que realmente ameaça a comunidade. A escolha rende uma ironia eficiente sem precisar transformar exclusão em virtude automática, embora o peso dessa ideia dependa de quanto esses personagens conseguem existir para além da função simbólica que carregam.

A mistura de comédia, política e horror dá ao longa uma identidade curiosa, com o imaginário gótico sendo deslocado para praças, ruas e figuras reconhecivelmente brasileiras. Nem toda provocação precisa ter a mesma precisão para que o comentário permaneça válido: Furnas Fundas passa tanto tempo escolhendo lados que quase deixa de perceber quanto aquela disputa já modificou a cidade antes mesmo de qualquer criatura aparecer.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS