Hope: O Primeiro Impacto

(2026) ‧ 2h40

Quando os monstros revelam quem somos

Felipe Fornari

A primeira hora de Hope: O Primeiro Impacto é daquelas experiências que fazem o espectador desconfiar de tudo o que está vendo. Na Hong-jin, diretor de O Lamento, constrói um thriller que começa como uma investigação policial em uma pequena comunidade sul-coreana e gradualmente se transforma em algo muito mais estranho, violento e imprevisível. Um animal aparece brutalmente mutilado, corpos começam a surgir pelas ruas e o chefe de polícia Bum-seok tenta entender o que está acontecendo enquanto uma ameaça invisível parece estar sempre um passo à frente. O mais interessante é que o filme demora deliberadamente para revelar sua criatura — e, até lá, consegue transformar a própria espera em espetáculo.

Essa primeira metade é extraordinariamente bem conduzida. A câmera acompanha Bum-seok pelos espaços devastados da cidade, quase sempre permitindo que escutemos tiros, explosões e gritos antes de descobrirmos suas origens. A sensação é de estar perseguindo alguma coisa que o protagonista nunca consegue alcançar. Na Hong-jin utiliza travellings impressionantes e uma montagem que administra informação e suspense com precisão, fazendo com que seja difícil distinguir quem está em perigo, quem representa uma ameaça e até mesmo aquilo que estamos esperando encontrar. É um exercício de gênero que funciona justamente porque parece conhecer perfeitamente as expectativas do espectador apenas para frustrá-las.

Quando finalmente revela sua criatura, Hope muda de natureza sem abandonar completamente o humor absurdo que vinha se insinuando. A aventura passa a dialogar com referências como Predador e Prometheus, mas a inspiração não está apenas na aparência ou na ação. O filme começa a questionar a facilidade com que aceitamos a lógica tradicional do herói que protege seu território eliminando aquilo que parece ameaçá-lo. Quanto mais conhecemos a situação, menos confortável fica torcer simplesmente pela destruição dos monstros. A fronteira entre vítima e agressor se torna cada vez mais incerta.

É nesse ponto que o elenco humano se torna deliberadamente estranho. Hwang Jung-min transforma Bum-seok em uma figura que inicialmente parece destinada ao heroísmo, enquanto Hoyeon oferece a Sung-ae uma presença mais racional em meio ao caos. Mas ninguém recebe exatamente o desenvolvimento que esperaríamos de protagonistas convencionais. Há policiais incompetentes, caçadores movidos por interesses próprios e personagens que respondem à ameaça com uma violência quase automática. As situações chegam a produzir um humor involuntário e quase cartunesco, mas essa caricatura parece fazer parte do projeto: quanto mais o filme avança, mais seus supostos heróis revelam limitações, egoísmo e incapacidade de enxergar além dos próprios medos.

O problema é que essa ousadia cobra seu preço. Depois de uma primeira hora tão precisa, o restante da narrativa perde parte considerável do impulso. As perseguições continuam, algumas delas longas demais, mas nem sempre acrescentam novas informações ao que já sabemos. A repetição começa a substituir a descoberta, e a estrutura fragmentada passa a parecer menos misteriosa e mais dispersa. É uma escolha compreensível dentro da proposta de Na Hong-jin, porém a diferença entre a primeira metade eletrizante e a segunda mais irregular é grande demais para ser ignorada.

Mais curiosa ainda é a maneira como o filme reduz deliberadamente a importância de seus próprios personagens. Taylor Russell, Alicia Vikander e Michael Fassbender surgem em papéis cercados de mistério, mas recebem pouquíssimo espaço para desenvolver suas figuras. Suas criaturas permanecem parcialmente ocultas até muito perto do final, quando algumas explicações chegam mais como promessa de continuação do que como conclusão satisfatória. Visualmente, inclusive, os efeitos digitais nem sempre alcançam a mesma excelência da direção e da fotografia, o que torna certas aparições menos convincentes do que deveriam. Ainda assim, existe uma provocação interessante nessa economia: talvez o filme esteja justamente questionando por que precisamos transformar tudo em personagens completamente explicados para nos importarmos com eles.

No fim, Hope: O Primeiro Impacto é mais fascinante quando desafia o espectador do que quando tenta entregar respostas. Na Hong-jin constrói uma obra de gênero que começa como thriller policial, passa pelo horror, abraça a ficção científica e ainda encontra espaço para satirizar a própria lógica dos heróis de ação. Nem todas as escolhas funcionam com a mesma força, e a longa segunda metade não consegue preservar o ritmo extraordinário estabelecido no início. Mesmo assim, há uma confiança admirável em um cineasta que prefere correr o risco de desorientar o público a oferecer uma aventura convencional. Quando finalmente olhamos para aquela estrada devastada e percebemos o tamanho insignificante dos humanos diante do que provocaram, fica claro que talvez o verdadeiro impacto de Hope esteja menos na criatura que chegou à cidade do que naquilo que ela revela sobre quem estava esperando por ela.

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