Em Squel, Confissões de uma Porta-bandeira, existe uma oportunidade valiosa de olhar para o Carnaval por uma perspectiva que nem sempre recebe a atenção merecida: a de quem carrega sobre os ombros a responsabilidade de representar a identidade de uma escola de samba. Ao acompanhar a trajetória de Squel Jorgea, o documentário nos aproxima de uma artista cuja dança exige muito mais do que talento e desenvoltura. Há uma história de dedicação, pertencimento e reinvenção por trás de cada movimento, e é justamente essa dimensão humana que torna o filme interessante.
Conhecer o percurso de Squel significa também compreender a importância de uma tradição que atravessa gerações. Sua ligação com o samba, construída desde a infância, ajuda a explicar a relação quase inseparável entre a artista e o pavilhão que conduz. O documentário reconhece essa herança cultural sem perder de vista a individualidade de sua protagonista, mostrando como uma trajetória de conquistas também é marcada por escolhas difíceis e pela necessidade constante de reafirmar seu lugar em um universo competitivo.

O retorno ao Carnaval depois da aposentadoria ganha especial relevância quando associado à maternidade e às transformações pessoais vividas por Squel. Mais do que recuperar a técnica que a consagrou, ela precisa reencontrar uma relação com o próprio corpo e compreender quem se tornou diante de uma nova etapa da vida. Essa dimensão oferece ao filme alguns de seus momentos mais significativos, sobretudo porque evidencia que voltar à avenida não significa simplesmente retomar de onde se parou, mas descobrir novas formas de seguir adiante.
A produção também acerta ao mostrar que o espetáculo visto pelo público é apenas a parte mais visível de um trabalho longo e exaustivo. Ensaios, preparações e a pressão de corresponder às expectativas revelam o esforço necessário para que a apresentação pareça tão natural e elegante. Essa aproximação com os bastidores ajuda a valorizar a porta-bandeira como artista e profissional, alguém cujo desempenho depende de disciplina e entrega. Ao mesmo tempo, a narrativa poderia explorar com mais profundidade algumas dessas dificuldades, permitindo que o impacto de determinados aspectos da profissão fosse ainda maior.
A direção de Celina Torrealba e Zeca Brito demonstra sensibilidade ao acompanhar Squel em um período de mudanças, deixando que suas lembranças e experiências conduzam boa parte da narrativa. Existe um interesse genuíno em apresentar a mulher para além da figura que desfila sob os holofotes, e essa proximidade favorece os momentos em que a protagonista compartilha suas inquietações. Ainda assim, o documentário nem sempre transforma essa intimidade em uma investigação cinematográfica mais abrangente, por vezes se contentando em registrar uma história que já possui força suficiente para despertar o interesse do espectador.

A ligação entre a trajetória da sambista e a apresentação inspirada em Um Defeito de Cor acrescenta outra camada à experiência, aproximando a celebração do Carnaval de questões relacionadas à ancestralidade, à identidade negra e à resistência. Nesse contexto, o bailado deixa de ser apenas uma demonstração de virtuosismo para assumir um significado que ultrapassa a competição entre escolas. O filme encontra aí uma maneira de valorizar a cultura popular brasileira e a complexidade de seus artistas, embora pudesse desenvolver melhor algumas dessas conexões para que elas reverberassem com ainda mais intensidade ao longo da narrativa.
Squel, Confissões de uma Porta-bandeira é um retrato sensível de uma artista que encontra na dança uma forma de expressar sua história e reafirmar sua identidade. Seu maior mérito está em reconhecer o trabalho, a força e a humanidade que existem por trás de uma das figuras mais emblemáticas do desfile das escolas de samba. Mesmo que algumas escolhas narrativas limitem a profundidade de sua abordagem, o documentário oferece um olhar envolvente sobre uma trajetória que merece ser conhecida e celebrada. É uma obra que valoriza Squel e, por meio dela, ajuda a lembrar que a magia da avenida começa muito antes de o primeiro tambor ecoar.








