Algumas pessoas parecem nascer com a missão de transformar os espaços por onde passam, não porque consigam eliminar as dificuldades, mas porque se recusam a deixar que elas definam quem são. Em Feito Pipa, Allan Deberton apresenta Gugu, um menino de 11 anos cuja personalidade vibrante se manifesta nas roupas, nas brincadeiras, no futebol e na maneira espontânea de ocupar o mundo. Vivendo com a avó Dilma, ele encontra no pequeno universo compartilhado pelos dois um lugar de afeto e liberdade, embora os preconceitos e as tensões familiares ameacem essa segurança. Com delicadeza e bom humor, o filme constrói um retrato sobre amadurecimento, identidade e a importância de encontrar pessoas que nos permitam existir sem pedir desculpas por isso.
Gugu conquista pela naturalidade com que expressa seus desejos e sua individualidade. Ele não é apresentado como alguém que precisa descobrir se há algo de errado consigo, mas como um garoto que enfrenta um ambiente incapaz de acolher plenamente aquilo que o torna singular. Na escola, as provocações de Francisco revelam como o preconceito pode se instalar cedo, enquanto a postura do pai, Batista, expõe uma rejeição menos explícita, mas igualmente dolorosa. O filme compreende que a violência não depende apenas de insultos ou agressões: ela também aparece nos olhares de desaprovação, nas expectativas impostas e na insistência em enquadrar uma criança em padrões que não lhe pertencem.

É na relação com Dilma que a narrativa encontra seu coração. A avó oferece ao neto um espaço de acolhimento no qual a alegria não precisa ser justificada, e a cumplicidade entre os dois se desenvolve em gestos cotidianos, brincadeiras e lembranças compartilhadas. A música, especialmente a ligação afetiva com Time After Time, de Cyndi Lauper, acrescenta uma dimensão delicada à relação, conectando o presente à memória da mãe de Gugu. Quando a saúde de Dilma começa a fragilizar-se, o menino passa a enfrentar a possibilidade de perder justamente a pessoa que mais o compreende. Sua tentativa de protegê-la revela uma maturidade inesperada, mas o roteiro evita transformar essa responsabilidade em uma idealização excessiva da infância.
Yuri Gomes é fundamental para que o personagem funcione tão bem. Sua interpretação combina espontaneidade, energia e uma sensibilidade que emerge sem esforço aparente, fazendo com que Gugu pareça uma criança de verdade, e não apenas uma figura construída para transmitir uma mensagem. Ao seu lado, Teca Pereira oferece uma Dilma calorosa e cheia de personalidade, estabelecendo uma parceria que sustenta boa parte da emoção do filme. Lázaro Ramos também contribui para a complexidade das relações familiares ao interpretar um pai dividido entre o afeto pelo filho e a dificuldade de aceitar sua maneira de ser. Embora esse conflito pudesse receber um desenvolvimento ainda mais aprofundado, a atuação evita que Batista se reduza a um antagonista sem nuances.
A direção de Deberton reforça a perspectiva do protagonista por meio de uma identidade visual exuberante. Os tons intensos, os figurinos expressivos e os ambientes cheios de vida traduzem a maneira como Gugu experimenta o mundo, transformando a estética em parte essencial da narrativa. Essa escolha não serve apenas para tornar o filme agradável aos olhos: ela estabelece um contraste significativo entre a riqueza interior do menino e as tentativas externas de restringir sua expressão. Mesmo quando a história se aproxima de situações dolorosas, a imagem preserva uma vitalidade que impede o sofrimento de ocupar todos os espaços. Existe aqui uma compreensão generosa de que a experiência queer na infância também pode ser atravessada por brincadeiras, vaidade, amizade e prazer.

Isso não significa que o longa ignore as dificuldades ou encontre soluções simples para conflitos profundamente enraizados. O filme reconhece a crueldade do preconceito e o peso das perdas, mas não transforma seus personagens em instrumentos de uma tragédia inevitável. Em alguns momentos, a narrativa se aproxima de caminhos sentimentais conhecidos e poderia explorar com mais profundidade determinadas tensões, especialmente a relação entre Gugu e o pai. Ainda assim, a sensibilidade do roteiro e a força de seu protagonista compensam essas limitações. A obra entende que esperança não é fingir que tudo ficará bem, mas preservar a possibilidade de construir uma vida digna mesmo quando o mundo insiste em dificultá-la.
No fim, o maior triunfo de Feito Pipa está em tratar a liberdade de ser quem se é como algo que merece proteção desde a infância. Gugu quer salvar o mundo, mas sua primeira missão é defender o pequeno universo que construiu com Dilma e preservar a alegria que tantas pessoas tentam diminuir. É uma ideia simples, apresentada sem cinismo e com uma confiança contagiante no poder dos vínculos afetivos. Em vez de exigir que o menino se adapte às expectativas alheias, o filme convida o espectador a questionar por que essas expectativas continuam sendo impostas. Emocionante, visualmente encantador e sustentado por atuações marcantes, é um daqueles filmes que deixam a sensação de que a delicadeza também pode ser uma forma extraordinária de resistência.









