Cartório das Almas

(2023) ‧ 1h17

A imortalidade como prisão e o cansaço de existir

Felipe Fornari

Cartório das Almas é uma ficção científica brasileira que faz do pouco um método. Não tem efeitos, não tem grandes produções, não tem pressa. É sustentado pelo silêncio e por uma paisagem vazia e solitária. É simples e, ao mesmo tempo, profundo. Traz a reflexão sobre o sentido de uma existência eterna e sobre o tédio de viver por viver. É sobre partidas, sobre as dores do mundo, sobre continuar a viver ou não.

Dirigido por Leo Bello, é um filme lento e melancólico, que usa a burocracia como metáfora para falar sobre o cansaço de existir. Chega a ser engenhosa na sua simplicidade. A humanidade alcançou a imortalidade como regra, e quem deseja abrir mão dela precisa protocolar os motivos por escrito num cartório. Laura (Gabriela Correa), de 126 anos, é funcionária desse cartório. Ela recebe os pedidos, registra as justificativas, encaminha a pessoa para uma sala e, ali, a pessoa faz a passagem, se transformando em um pássaro preto. O mistério é mantido, não se sabe ao certo como é essa passagem e não é essa a questão central. O cartório funciona num casarão de aparência abandonada, cercado por um cenário desértico e vazio. A fotografia é composta por tons quase monocromáticos, tempos lentos, que levam a uma sensação de solidão.

Não há reviravoltas, não há grandes acontecimentos, os diálogos são escassos. Cartório das Almas não está interessado em explicar como a imortalidade foi alcançada, nem mesmo o que acontece após a morte. O foco está na densidade da questão se viver por viver faz sentido, de qual o sentido da vida e qual o sentido da morte, de como a imortalidade pode ser uma prisão melancólica.

Por fim, é importante reiterar que, apesar de ser uma ficção científica, não é um filme para quem espera uma trama com reviravoltas ou outros estímulos. É uma ficção científica contemplativa e lenta, sobre questões existenciais, com um ritmo que exige quase uma meditação. É bom ver o cinema nacional explorar outros gêneros e experimentar outras formas de fazer cinema.

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