Garota Infernal

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23.10.2009

Um clássico contemporâneo, "Garota Infernal" abriu caminho para um cinema de horror onde as mulheres não são apenas as últimas a sobreviver

Quando saiu, em 2009, Garota Infernal foi um grande fracasso de bilheteria e recepção. A crítica não quis entender o filme, muito menos a proposta da diretora Karyn Kusama com a roteirista Diablo Cody. A segunda tinha acabado de ganhar um Oscar pelo roteiro de Juno (2008), sua estréia, e a primeira tinha chamado atenção com os filmes Boa de Briga (2000) e Aeon Flux (2005), ambos recebidos com bastante atenção e polêmica. Porém, quase quinze anos depois, Garota Infernal se tornou um dos filmes de terror (com pitadas de comédia) mais cultuados por ter aberto um caminho importante para diretoras e roteiristas de cinema poderem explorar o que chamamos hoje de female gaze.

A visão de mulheres na realização não era nenhuma novidade no final da primeira década do século XXI, mas Karyn Kusama trouxe algumas questões interessantes para os padrões clássicos (e masculinos) de narrativas. Primeiro, ela queria que o filme fosse uma espécie de horror gonzo (exagerado, sem muito objetivo e focado na ação, como 80% dos filmes do gênero), com uma criatura-mulher comedora de homens. A sinopse do filme é repleta de clichês do cinema de terror: duas amigas – uma nerd fora dos padrões de beleza e a outra, uma linda líder de torcida sem muito conteúdo intelectual –, no último ano do ensino médio, são muito apegadas e tentam lidar com suas próprias sexualidades. Em um dia qualquer, a líder de torcida insiste em que a amiga a acompanhe em um show de uma banda de fora. Por acaso, os caras estão em busca de uma virgem para oferecer em sacrifício para o sucesso da banda e ficam obcecados por Jennifer, não só porque é bonita, mas porque acreditam que, justamente por isso, é a mais fácil de enganar. Entretanto, ela não era uma virgem e acaba se tornando uma monstruosa criatura, o que torna tudo mais divertido e visceral.

Needy (Amanda Seyfried) e Jennifer (Megan Fox) moram em Devil’s Kettle (chaleira do diabo), um lugar que realmente existe no estado de Minnesota. Este e outros detalhes escritos por Diablo Cody fazem jus a qualquer bom filme de terror: colegiais e punição pela sexualidade pulsante, bandas de rock vendendo a alma pela fama, criaturas brutais e uma comunidade desesperada ao ver seus jovens perdidos são alguns dos pontos que ela traz. Mas, em Garota Infernal, tudo é uma oportunidade para rir dos padrões masculinos de mocinhas que gritam, são assassinadas ou as últimas a sobreviver (a custo da sanidade), se pensarmos nas clássicas final girls. Começando pela escolha de Megan Fox no papel de Jennifer, que na época era o que a crítica tradicional chama de musa ou sex symbol da franquia Transformers. A sacada de colocar uma atriz que tinha sua imagem abusada pelos estúdios foi ironicamente mal compreendida pelo marketing que optou em focar no “público masculino” na divulgação. Por exemplo, o pôster oficial do filme mostra Jennifer vestida de “colegial sexy”, com sandálias vermelhas e altas, uma saia bem curta de pregas com um decote vermelho, roupas que ela não usa em nenhum momento do filme.

Aliás, aliada com o roteiro divertido de Diablo Cody – que também sofria por ser a roteirista-antes-stripper –, Kusama quase nunca explora o corpo de Megan/Jennifer em tela. Consegue mostrar a problemática, e vulnerabilidade, da sensualidade da personagem e, em contrapartida, mostra ela em ação literalmente comendo os homens. Eles facilmente caem na sua lábia sedutora e o filme faz isso sem colocar o corpo dela enquanto protagonista, apenas quando pode apontar para uma monstruosidade como os enormes dentes devoradores. As cenas de ataque em Garota Infernal são bastante pontuais e certeiras, a diretora e equipe abusam de sombras, sangue e há poucos elementos gore como vômito escuro e vísceras das vítimas. Também, coloca do outro lado, Needy aprendendo a se defender, brutalizando a si mesma em nome de parar a amiga monstruosa. Um ponto interessante, de torção em relação às clássicas final girls, é que a personagem tem um desfecho depois de sobreviver, se tornando a narradora da história, totalmente não confiável.

Um dos problemas em Garota Infernal também tem um lado de pioneirismo: a amizade entre mulheres. Ao mesmo tempo que Cody e Kusama conseguem apontar as fricções entre hetero e bissexualidade nas personagens, também torcem a amizade a ponto de existir uma disputa entre elas em nome de salvar alguns homens. Jennifer seduz e abocanha o namorado fofo de Needy, que até então achava tudo apenas estranho na amiga, compreendia a violência que ela havia sofrido, mas não a ponto de eliminá-la. A resolução de “matar o inimigo” realmente mostra uma impossibilidade da época, mas o fato de que algo de Jennifer pode ficar incrustado em Needy também abre uma discussão vindoura: a de que todas carregamos muitas coisas parecidas.

Garota Infernal é um verdadeiro clássico contemporâneo que consegue trazer diversão do ponto de vista de comédia – as tiradas bem ao estilo de Cody são imperdíveis –, assim como nos clássicos de terror colegial com muito sangue, personagens estúpidos sendo mortos e uma monstra faminta e implacável. A trilha sonora é excelente – a banda Hole fez uma música especial para o filme – e muitos dos elementos que surgem em Garota Infernal são possíveis de perceber em trabalhos como a série de terror Yellowjackets, em andamento, em que Kusama é produtora e diretora junto com outras mulheres.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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