Plano 75

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20.04.2024

"Plano 75" seria sobre um Japão distópico, mas transborda realidade e emoção em cada cena e diálogo

É por isso que eu gosto de assistir terror, principalmente aqueles exagerados. Você assiste, aquilo não existe, dá umas risadas, chama os personagens de burros, o filme acaba e a vida segue. Agora quando você vai assistir algo como Plano 75, o filme acaba te destruindo aos poucos. Cada minuto faz você pensar em uma ou outra coisa, em alguém, em várias pessoas que você nem conhece e o filme acaba, mas os pensamentos continuam com você por horas e em alguns casos até dias.

A história é boa e muito bem desenvolvida. São quase duas horas, mas você nem percebe o tempo passar. As atuações são incríveis, todo mundo mandou muito bem transmitindo absolutamente tudo em todos os momentos: solidão, tristeza, necessidade, falta de objetivo, carência, ambição, arrependimento, carinho e amor. Tá tudo ali e tudo na medida certa para que a situação proposta no filme te acerte em cheio no meio do peito como se fosse uma voadora daquelas bonitas que o Van Damme fazia em seus filmes.

O filme em si é todo ok, está tudo certo nele, muito bem produzido e dirigido, boa trilha sonora, bom roteiro, tudo realmente muito bom. O que pega aqui é mesmo a situação, no Japão do filme não tem mais espaço para os idosos, não sabem o que fazer com eles, as famílias não querem ou eles não possuem família, e ainda consomem muitos recursos só por estarem vivos e com isso é criado um programa do governo chamado Plano 75, que nada mais é que a comercialização do suicídio. Idosos acima de 75 anos são incentivados a “desistir da vida nos seus próprios termos e em paz”, deixando assim o país para os jovens.

Esse pessoal esquece que os idosos já foram jovens e que eles construíram o mundo que agora os jovens estão habitando e querendo se livrar deles. No filme mostra bem claro que os idosos em sua grande maioria precisam continuar trabalhando para se sustentarem, muitos não têm filhos, nem nenhum outro parente e vivem do seu trabalho, mas não é fácil achar trabalho e isso não é só no Japão distópico do filme, é a realidade de muitos, inclusive aqui no Brasil, aliás são poucas as pessoas que conseguem viver da sua aposentadoria, a maioria se aposenta e precisa continuar trabalhando, ou como estamos tão acostumados a trabalhar, trabalhar e trabalhar, acabamos não tendo outro objetivo na vida além de trabalhar e quando chega a hora de se aposentar todos ficam preocupados “nossa, o que vai fazer agora que se aposentou? Vai acabar morrendo se não fizer nada” e por quê? Porque somos condicionados a isso, a trabalhar e pagar contas.

Quando você, teoricamente, já cumpriu seu papel na sociedade, trabalhou dedicando os melhores anos da sua vida e finalmente chega o momento de curtir você não sabe o que fazer ou não tem meios para curtir e precisa continuar trabalhando. Meu pai foi um desses, se aposentou com um salário-mínimo e continuou trabalhando quase até morrer, mesmo com a minha ajuda em casa, porque precisava e porque sem trabalhar não sabia o que fazer.

No filme outra coisa além do trabalho fica bem clara, a solidão que os idosos enfrentam, morando sozinhos, os filhos (quando eles têm filhos né) cuidando de suas vidas e sem tempo para uma ligação sequer acaba sendo normal o idoso pensar “meu papel está feito aqui, não tenho mais nada para fazer, posso ir em paz”, sendo que cinco minutos de conversa por dia, ou a cada dois dias já fariam com que esse idoso se sentisse vivo, que alguém ainda enxergava ele como pessoa e não como um estorvo, como alguém que já passou da hora, mas sim como uma pessoa que merece respeito e dignidade, e que hoje está velha, mas que já deu muito sangue e suor enquanto podia.

O filme me fez ficar pensando em várias coisas que já pensei algumas vezes, uma delas inclusive é a maior questão de todas, o que fazer quando estiver aposentado. Falta muito para isso ainda, quem sabe até lá a aposentadoria é melhor aqui no Brasil. Enfim, o filme é muito bom como filme, mas excelente nas questões que levanta. E Felipe não vem com mais filme assim pro meu lado não, pelo amor de Deus rs

ONDE ASSISTIR

AUTOR

André Bordoni

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