Em 1850, com a Lei de Terras, o Brasil oficializou sua opção pelo latifúndio em detrimento de pequenas propriedades, nunca houve Reforma Agrária. Dessa forma, os conflitos entre pequenos produtores e grandes latifundiários, que têm a sua disposição o aparato estatal, estão em curso. Entre os anos 1970 e 1980, no Acre, sucederam-se conflitos entre latifundiários ligados à pecuária e seringueiros. Em 22 de dezembro de 1988, essas disputas culminaram no assassinato do ativista ambiental e líder seringueiro Chico Mendes, no quintal de sua casa, em Xapuri. O crime causou uma comoção mundial e evidenciou a luta dos povos da floresta Amazônica contra a destruição ambiental atrelada à pecuária.

O documentário Empate mostra alguns dos interlocutores de Chico Mendes em Xapuri, trinta anos após após seu assassinato: as mudanças, as permanências e os desafios atuais efrentados pelos seringueiros no Acre. Como explica a senhora Marlene no começo do filme, “Empate” refere-se à forma de resistência pacífica dos seringueiros e suas famílias para enfrentar a destruição da floresta, em que crianças, mulheres e homens de todas as idades perfilados e cantando o Hino Nacional enfrentavam tratores e jagunços armados prestes a destruir áreas de seringal.
O documentário não tenta parecer isento, muito pelo contrário, evidencia com clareza as injustiças cometidas contra seringueiros que vivem em áreas do entorno da Reserva Extrativista Chico Mendes que sofrem a pressão dos latifundiários, além de processos judiciais para desocuparem suas terras. Imagens aéreas mostram o horror da destruição ambiental e o vazio advindo das atividades pecuárias.

Empate acerta muito em mostrar o rosto e a voz das pessoas que têm promovido a conservação da Amazônia, normalmente invisibilizadas. O documentário me fez lembrar do excelente livro Chico Mendes – Crime e Castigo escrito por Zuenir Ventura, que esteve em Xapuri logo após o assassinato do Ativista e volta ao local 15 anos depois.
Em cerca de 1h30 não seria possível mostrar mais sobre quem promove o desmatamento, as forças políticas e culturais do agronegócio. Mas, há uma seção do documentário chamada de “Fazedores de deserto” que mostra um pouco da cultura ligada aos trabalhadores vinculados à pecuária: músicas, indumentárias e rodeios. Essa parte do filme chamou minha atenção por mostrar crianças prestando atenção em conversas de adultos sobre “a missão de criar boi” e montadas em touros mecânicos. Enquanto a câmera foca nas crianças nesse momento, elas são pouco evidenciadas quando os companheiros e companheiras de luta de Chico Mendes são entrevistados, alguns deles já idosos. O documentário deixou para mim a pergunta: Quem irá promover a conservação da Amazônia no futuro?




