Mickey 17

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04.03.2025

"Mickey 17": Uma odisseia brilhante de Bong Joon Ho

Após o estrondoso sucesso de Parasita, Bong Joon Ho retorna ao gênero da ficção científica com Mickey 17, um filme que combina espetáculo visual, sátira mordaz e um questionamento profundo sobre identidade e poder. Baseado no romance de Edward Ashton, a obra se destaca não apenas por sua premissa instigante, mas também pelo modo como Bong a transforma em uma experiência cinematográfica cheia de camadas. No centro de tudo, Robert Pattinson entrega uma de suas performances mais versáteis, provando novamente seu talento para personagens complexos e enigmáticos.

A trama nos leva a Niflheim, um planeta gelado onde Mickey Barnes é um “descartável”, um ser humano que morre e renasce quantas vezes for necessário para cumprir missões letais. Mas quando sua 17ª versão descobre que talvez sua existência não seja tão descartável assim, o filme mergulha em uma narrativa de sobrevivência e autodescoberta que desafia as regras do jogo. Bong Joon Ho costura esses elementos com maestria, equilibrando ação, suspense e um humor sarcástico que dá identidade única ao longa.

Pattinson brilha no duplo papel de Mickey 17 e Mickey 18, diferenciando as versões do personagem com sutileza e intensidade. Seu desempenho transita entre o desespero e a astúcia, tornando sua jornada fascinante. O elenco de apoio não fica atrás: Mark Ruffalo encarna um líder caricato e perigoso, Toni Collette é uma presença implacável, e Steven Yeun adiciona um toque de ironia ao grupo. Cada um contribui para tornar esse universo tão bizarro quanto envolvente.

Visualmente, Mickey 17 impressiona. A direção de arte e a fotografia de Darius Khondji criam um ambiente ao mesmo tempo futurista e decadente, reforçando o tom de desolação da colônia humana. Bong Joon Ho também brinca com referências cinematográficas e música de maneira inventiva, criando momentos que oscilam entre o absurdo e o sublime. A trilha sonora contribui para a atmosfera caótica e inesperada que só um cineasta como ele sabe orquestrar.

O roteiro, como em outros trabalhos de Bong, carrega uma crítica social afiada. A exploração de Mickey reflete um sistema onde o ser humano é tratado como peça substituível, enquanto o vilão de Ruffalo simboliza o autoritarismo e a ganância levados ao extremo. Essas mensagens nunca são entregues de forma óbvia, mas sim diluídas na trama de maneira que instiga o espectador sem comprometer o ritmo ou a diversão.

Ainda que o filme flerte com o caos narrativo e algumas de suas ideias fiquem ligeiramente dispersas, isso faz parte do charme dele. A capacidade do diretor de mesclar gêneros e manter a história sempre imprevisível torna Mickey 17 uma experiência cinematográfica única. O longa pode não ter a coesão cirúrgica de Parasita, mas compensa com ambição, criatividade e um olhar afiado para o absurdo da condição humana.

Combinando ficção científica inteligente, humor ácido e uma atuação cativante de Robert Pattinson, Mickey 17 reafirma Bong Joon Ho como um dos grandes cineastas da atualidade. E o filme como uma obra que, além de entreter, provoca reflexões sobre identidade, moralidade e o preço da sobrevivência.

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AUTOR

Felipe Fornari

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