As Aventuras de uma Francesa na Coreia

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03.04.2025

O estranhamento como linguagem em "As Aventuras de uma Francesa na Coreia"

O novo filme de Hong Sang-soo, As Aventuras de uma Francesa na Coreia, é uma experiência ao mesmo tempo desconcertante e hipnótica. Como de costume na filmografia do diretor sul-coreano, a narrativa se move em um ritmo calmo, com longas conversas e gestos mínimos que ganham peso simbólico com o passar do tempo. Mas há algo de especialmente intrigante neste título: a presença de Isabelle Huppert, mais uma vez colaborando com Hong, desta vez como Iris, uma francesa excêntrica e enigmática que parece atravessar Seul em estado de leve suspensão, quase como se fosse um espírito vagando em busca de algo que nem ela sabe nomear.

Iris ensina francês de maneira pouco ortodoxa: suas aulas consistem mais em longos diálogos filosóficos em inglês, seguidos de fichas escritas com pensamentos que as alunas devem repetir. O idioma francês, curiosamente, quase não é ouvido no filme. Esse estranhamento inicial é só o começo de uma série de situações que desafiam a lógica convencional – tanto da narrativa quanto das relações humanas. Cada encontro que Iris tem parece ecoar o anterior, com instrumentos musicais, pedras gravadas e confissões emocionais reaparecendo como num ciclo ritualístico.

A estrutura é simples, mas cheia de espelhos e ressonâncias. A primeira aluna, uma jovem pianista, é incentivada a mergulhar em sentimentos incômodos durante sua performance. A segunda, uma senhora que toca violão, é mais resistente às abordagens de Iris – mas também acaba envolvida nesse jogo emocional de escuta e exposição. Em ambas as cenas, há um senso de desconforto e intimidade inesperada, que se reflete também nas reações de seus maridos. São momentos que beiram o cômico, mas com um tipo de humor tão seco e sutil que chega a parecer acidental.

O minimalismo visual e a trilha quase ausente acentuam o caráter contemplativo da obra. Hong filma com sua habitual economia de meios: takes longos, zooms inesperados e nada de música incidental. Essa estética, que poderia soar austera em outras mãos, aqui tem algo de acolhedor – como se estivéssemos sendo convidados a observar, sem pressa, os microgestos do afeto, da solidão e da curiosidade entre culturas. A cena em que Iris coloca lentamente a mão no braço de um dos personagens é um bom exemplo: pequena demais para ser chamada de clímax, mas tão carregada de ambiguidade que se torna inesquecível.

Huppert está brilhante como sempre, mas em um registro particularmente intrigante. Sua Iris pode ser lida como uma mulher que carrega traumas, ou como uma viajante desajustada que apenas vive o presente sem grandes preocupações. A personagem se insere no cotidiano dos coreanos com uma naturalidade artificial – beijando as bochechas, andando descalça, bebendo makgeolli como se fosse água. Sua presença é gentil, mas sempre um pouco fora de lugar. E é justamente nesse deslocamento que o filme encontra seu charme.

Hong não dá respostas fáceis – aliás, não dá respostas. Em certos momentos, o filme flerta com a ideia de que Iris nem sequer seja real, como se estivéssemos diante de um devaneio coletivo. Mas em vez de mergulhar no surrealismo ou no drama, o diretor mantém tudo na superfície da vida cotidiana, onde os gestos mais simples podem carregar significados profundos. O resultado é uma obra leve e misteriosa, que sugere muito mais do que explicita, e deixa no ar uma pergunta que talvez nem precise de resposta: o que realmente precisamos para viver?

As Aventuras de uma Francesa na Coreia é, como o título sugere, um passeio – mas não no sentido turístico. É uma jornada de escuta e presença, onde o que importa não são os marcos visitados, e sim os encontros pelo caminho. É cinema de sensações, feito com mãos leves e olhar atento. Um filme que, como sua protagonista, parece deslocado, mas encontra beleza justamente por não tentar se encaixar.

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AUTOR

Felipe Fornari

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