O filme é um olhar sobre o que rolou nos bastidores de uma das maiores composições clássicas da música francesa, Bolero, quando a bailarina Ida Rubinstein, interpretada por Jeanne Balibar, encomenda a Maurice Ravel, vivido por Raphaël Personnaz, o que seria a música de seu próximo balé.
Ravel é um artista entre o desafio de se relacionar com as próprias emoções e a liberação de criatividade. Para somar a esse desafio, uma sequência de episódios de saúde se revela como uma doença psicológica degenerativa. Assim, Maurice se vê em uma corrida contra o tempo, e talvez também contra a própria memória, para produzir sua arte, que lhe escapa silenciosamente. Essa tensão entre o anseio pela grandeza e a deterioração é o que move o filme, mas nem sempre com a intensidade que promete.

Anne Fontaine, a diretora conhecida por Coco Antes de Chanel, já familiar ao gênero de obras biográficas, se vê no mesmo conflito de Maurice Ravel e sua sina criativa: amplo domínio das ferramentas e da receita que funciona, porém, pouca intuição, que tem o poder de tornar algo bom em excepcional. Além de um design de produção que falha em te transportar ao início do século XX, a diretora parece relutar em dar profundidade às narrativas de vida do músico e à raiz do seu bloqueio.
A dinâmica romântica peculiar de Ravel e Misia, interpretada por Doria Tillier, são os momentos mais envolventes entre as 2h de filme. São essas as cenas onde os atores abrem espaço para a mente do compositor. Ainda assim, a atuação de Personnaz pouco emociona e não desenvolve os aspectos de personalidade do músico, que se via como um Claude Debussy menos afortunado e mais amargo.

O roteiro dá profundidade suficiente à história da criação do Bolero, porém deixa a desejar na sequência de fatos até o grande momento: a primeira performance da obra. O clímax, tão aguardado, carece de grandiosidade e impacto, e a história deixa o papel da bailarina Rubinstein um tanto apagado, reduzindo sua responsabilidade no sucesso da obra. A sequência da história perde tensão e parece arrastada após esse momento, explorando frustrações e o avanço da doença de Ravel.
Para quem se interessa pela história do Bolero e seu criador, sem contexto prévio, o filme pode deixar mais espaços em branco do que respostas de fato. Mas, para um público francês, já conhecedor do impressionismo clássico e da história de Claude Debussy, Maurice Ravel e seus contemporâneos, a história funciona melhor e traz um ângulo subjetivo.





