O Diabo Veste Prada é, acima de tudo, uma comédia afiada sobre vaidade, ambição e identidade — envolta num figurino deslumbrante e numa performance que se tornou icônica. O filme tem dois tons bastante distintos: um, cínico e espirituoso, que satiriza o universo da moda; outro, sentimental e previsível, que tenta ser um drama de amadurecimento. Curiosamente, mesmo com essa divisão nem sempre fluida, o saldo final ainda é extremamente positivo, graças a uma trinca de atuações memoráveis e uma direção que sabe tirar brilho de um material que poderia facilmente ser banal.
A história é centrada em Andy Sachs (Anne Hathaway), recém-formada em jornalismo e alheia ao universo fashion, que se vê contratada como assistente pessoal de Miranda Priestly (Meryl Streep), a temida editora-chefe da revista Runway. A oportunidade, que abre portas para uma carreira promissora, logo se mostra um campo minado emocional, onde cada escolha profissional tem um preço pessoal. O dilema moral da protagonista — crescer na carreira ou manter sua essência — é conhecido, mas ganha roupagem elegante nas mãos do diretor David Frankel.

É impossível falar de O Diabo Veste Prada sem destacar Meryl Streep. Com gestos mínimos e um olhar cortante, ela transforma Miranda numa figura lendária, humanizando o que poderia ser apenas uma vilã caricata. Sua Miranda intimida sem levantar a voz, e basta um “That’s all” para encerrar qualquer discussão. Emily Blunt e Stanley Tucci, como Emily e Nigel, respectivamente, trazem graça, sarcasmo e uma camada de emoção inesperada. Quando os três estão em cena, o filme encontra sua verdadeira alma.
O problema é que, quando a narrativa deixa as salas espelhadas da Runway para se concentrar na vida pessoal de Andy, o ritmo cai. A relação dela com o namorado Nate (Adrian Grenier) é rasa e, ironicamente, menos interessante que as dinâmicas tóxicas no trabalho. Há uma ironia aqui: o filme quer mostrar que o mundo corporativo não deve consumir a vida pessoal, mas é justamente nesse ambiente competitivo e artificial que o longa é mais envolvente. Fora dali, tudo parece genérico.
O roteiro também escorrega ao tentar entregar um “arco de redenção” que soa didático. A mudança repentina de Andy — de deslumbrada a moralista — não convence por completo, e o final, que tenta ser edificante, parece colado de outra história. A sátira afiada que marca a primeira metade dá lugar a um desfecho adocicado demais, quase um anticlímax. Fica a sensação de que o filme tinha coragem para mais, mas preferiu se acomodar na zona de conforto.

Apesar disso, O Diabo Veste Prada é um prazer visual e narrativo. O figurino de Patricia Field é um espetáculo à parte e transforma cada cena num desfile. A montagem mantém o ritmo ágil, especialmente nos famosos montagens de transformação de Andy, e a trilha sonora ajuda a criar uma atmosfera pop sofisticada. Mesmo com suas fragilidades, o filme diverte, provoca e deixa algumas frases marcantes no vocabulário popular — quem nunca pensou em “florais para a primavera”?
Mais do que uma crítica ao mundo da moda, O Diabo Veste Prada é sobre escolhas e o preço de se adaptar (ou não) aos ambientes que queremos conquistar. E mesmo que a mensagem final seja um pouco diluída, o caminho até ela é cheio de estilo, humor e personagens que continuam fascinando anos depois. No fim das contas, é como uma peça de alta-costura: pode ter um ou outro ponto frouxo, mas ainda assim brilha quando entra na passarela.




