Existe algo de comovente e sincero em Memórias de um Caracol que nos pega de surpresa. O novo longa em stop-motion de Adam Elliott, vencedor do Oscar pelo curta Harvie Krumpet, combina sua estética já conhecida com uma carga emocional ainda mais densa e íntima. A animação narra a história de Grace, uma mulher excêntrica e solitária, presa às lembranças e traumas da infância. Mas mais do que apenas tristeza, o filme oferece esperança — uma esperança torta, cheia de feridas, mas ainda assim tocante.
Com a voz delicada de Sarah Snook, Grace é apresentada inicialmente como uma acumuladora reclusa, vivendo entre objetos esquecidos e uma coleção de caracóis. Logo mergulhamos em seu passado, onde tragédias familiares e separações forçadas moldaram sua personalidade. A relação com o irmão gêmeo Gilbert (Kodi Smit-McPhee), interrompida por um sistema de adoção cruel, carrega o núcleo emocional do filme. Há uma ternura melancólica na forma como Elliott reconstrói essas memórias, evocando tanto a beleza da infância quanto o peso de crescer com tantas ausências.

O humor, presente nos trabalhos de Elliott, surge com um toque agridoce. As situações são absurdas — como a família religiosa e opressora de Gilbert ou os pais adotivos “prafrentex” de Grace — mas nunca perdem o tom de crítica social embutido na caricatura. É um tipo de riso que dói, que nos lembra que as histórias mais engraçadas às vezes nascem da tristeza mais profunda. Nesse sentido, o filme remete a obras como O Fantástico Sr. Raposo e Mary e Max, esta última também dirigida por Elliott, onde a excentricidade serve como escudo emocional.
Pinky, dublada por Jacki Weaver, é um dos grandes trunfos da narrativa. A figura da senhora vibrante e desajustada traz cor à vida de Grace e ao próprio visual da animação. É nela que Grace encontra um tipo de amor não-romântico, mas ainda assim transformador. Pinky cheira a gengibre e lojas de segunda mão, e se veste como uma versão australiana da Edna Mode de Os Incríveis, com o coração do tamanho do mundo. A relação entre elas é o que salva Grace da total desconexão.
A estética artesanal de Memórias de um Caracol dialoga com sua protagonista: há imperfeições evidentes, texturas visíveis, um cuidado quase nostálgico com cada detalhe. É um filme que se recusa a polir suas emoções — ou suas formas — e, por isso mesmo, soa mais verdadeiro. Os traumas de Grace não são suavizados para caber num formato infantil. Pelo contrário, o filme aposta numa narrativa que pode ser compreendida por adultos e crianças em diferentes níveis, como fazia O Menino e o Mundo, de Alê Abreu.

Há também um tom autobiográfico que parece atravessar a narrativa. Seja na figura do pai animador ou nos pequenos detalhes da cultura australiana dos anos 1970, tudo em Memórias de um Caracol carrega a marca de uma lembrança real, mesmo que transfigurada em fantasia. E é exatamente isso que torna o filme tão tocante: não se trata de uma história sobre superação no sentido clássico, mas sobre encontrar beleza e conexão mesmo nos cantos mais escuros da memória.
Ao final, Memórias de um Caracol nos deixa com uma sensação agridoce. É um daqueles filmes que fazem cócegas na alma, que abraçam os esquisitos e os machucados com um carinho rarefeito. Em meio a tantos blockbusters animados que parecem moldados por algoritmos, a obra de Adam Elliott lembra que a vulnerabilidade também pode ser um ato de criação. E que, como os caracóis, às vezes precisamos carregar nossa casa — e nossas dores — nas costas para seguir em frente.







