Na Teia da Aranha

(2023) ‧ 2h15

05.06.2025

"Na Teia da Aranha": O caos do cinema, o cinema do caos

Na Teia da Aranha, dirigido por Kim Jee-woon, é uma comédia satírica sobre o processo de criação cinematográfica, com um toque metalinguístico. Se você já teve a oportunidade de fazer um filme, é comum que seus pensamentos sejam atormentados em todas as fases do desenvolvimento e produção da obra. Ao acompanhar as filmagens ou a edição, sua mente pode não aprovar o que está acontecendo, quase forçando-o a criar novas ideias para melhorar – ou piorar – sua visão original. Essa mentalidade se reflete no diretor fictício Kim, que acredita que seu trabalho mais recente, Cobweb (o título original do próprio filme), precisa de uma reformulação na parte final para se tornar uma verdadeira obra-prima. Temos aqui uma ideia do que acontece em Na Teia da Aranha, uma grata surpresa sul-coreana com direção de Kim Jee-woon.

O filme acontece quase inteiramente em um set de filmagem na década de 1970, onde o diretor Kim (interpretado por Song Kang-ho) tenta refilmar o final de sua obra, acreditando que isso a transformará em uma obra-prima. A crítica elogia a forma como Kim Jee-woon retrata o caos, a pressão da censura, a incompreensão dos atores e produtores, e a loucura do diretor em busca de sua visão.

Na Teia da Aranha pode ser literalmente descrito como uma comédia de humor ácido e uma sátira mordaz sobre os egos e inseguranças da indústria cinematográfica. As piadas e as situações absurdas que surgem no set são pontos fortes do filme.

O protagonista, Song Kang-ho (conhecido por Parasita), tem sua atuação como o diretor Kim elogiada, transmitindo a paixão e a angústia do personagem de forma convincente.

O filme se destaca visualmente, alternando entre as cenas coloridas do “making of” e as cenas em preto e branco do filme que está sendo produzido, criando um contraste interessante e um certo charme retrô, evocando o cinema clássico coreano dos anos 1970.

Apesar da destreza técnica e da energia, o roteiro pode ter ambições mínimas ou se estender demais, tornando alguns trechos um pouco arrastados. A sensação é de que, em certos momentos, o filme é “excessivamente satisfeito com sua própria esperteza”, e nem todas as piadas funcionam para todos. Além da sátira, o filme aborda temas como a liberdade de expressão, a pressão dos censores e a busca incessante do artista por sua visão, questionando se o risco em nome da arte realmente vale a pena. No entanto, o filme não se aprofunda o suficiente nessas questões, preferindo focar na comédia.

O filme que está sendo filmado dentro da história principal é muitas vezes mais intrigante e visualmente interessante do que a trama principal, o que pode ser um ponto fraco para alguns espectadores. O longa acerta em cheio ao representar de forma maníaca um artista perdendo o controle criativo. O espectador testemunha uma guerra subconsciente ao longo da obra: a jornada de um homem em busca de absolvição. É o diretor contra o Estado. Nesse contexto, Na Teia da Aranha é tanto uma carta de amor compassiva ao processo de produção cinematográfica quanto uma crítica ao sistema de estúdios em geral, algo ainda relevante no cenário atual, onde os artistas continuam sendo forçados a cumprir as regras de uma rede centrada no capitalismo. A narrativa, de forma chocante, revela os perigos de suprimir a liberdade de expressão.

Em resumo, Na Teia da Aranha é um filme que diverte pela sua comédia e metalinguagem, com uma performance central forte de Song Kang-ho e uma direção visualmente impactante de Kim Jee-woon. No entanto, a recepção pode variar dependendo da preferência do público por esse tipo de humor e do quão bem as camadas satíricas e temáticas se conectam para cada espectador. É uma obra que celebra e, ao mesmo tempo, critica o processo de fazer cinema.

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AUTOR

Ricardo Feldmann Dotto

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