Quero Ser John Malkovich é uma daquelas raras experiências cinematográficas que parecem brotar diretamente do inconsciente coletivo, onde o absurdo não apenas existe, mas faz todo o sentido. É uma comédia existencial, uma fábula filosófica e um devaneio visual, tudo ao mesmo tempo — um filme que não se contenta em seguir convenções e prefere criar seu próprio jogo de regras. O diretor Spike Jonze, em sua estreia no longa-metragem, alia a ousadia estética de seus videoclipes à mente alucinada do roteirista Charlie Kaufman, e juntos eles nos empurram por um túnel literal e metafórico que leva direto à mente (e à vida) de um ator de verdade: John Malkovich.
A premissa já seria suficiente para um curta ou até uma esquete cômica, mas o que surpreende é como o filme consegue expandi-la em tantas direções sem nunca perder o controle. Craig Schwartz (John Cusack) é um marionetista desempregado que encontra trabalho no andar “sete e meio” de um prédio corporativo — literalmente comprimido entre os andares sete e oito. É lá que ele descobre um portal para dentro da mente de John Malkovich, uma viagem que dura exatamente quinze minutos antes de o visitante ser cuspido nos arredores da New Jersey Turnpike. A princípio, tudo parece uma grande piada, mas rapidamente o filme mergulha em temas muito mais densos: identidade, desejo, poder e o vazio da existência.

O que começa como uma farsa ganha complexidade quando a esposa de Craig, Lotte (Cameron Diaz), e sua colega de trabalho Maxine (Catherine Keener) entram em cena. O triângulo (ou quadrado?) amoroso que se forma envolve possessões mentais e sexuais, confundindo quem ama quem — ou quem está em quem — a cada nova reviravolta. Lotte descobre um novo lado de si mesma ao habitar o corpo de Malkovich; Craig, obcecado por Maxine, encontra no controle sobre o ator uma forma distorcida de sedução. A corporalidade e a identidade se misturam numa dança estranha, desconfortável, mas hipnotizante.
É impossível não se perguntar por que John Malkovich. A escolha é tão aleatória quanto genial. Malkovich, com seu jeito enigmático, voz hipnótica e aparência pouco convencional, encarna perfeitamente o desconforto que o filme deseja provocar. Ele é, ao mesmo tempo, uma presença banal e profundamente singular — e talvez seja justamente essa ambiguidade que torna tudo tão fascinante. O próprio ator abraça o projeto com coragem e senso de humor, permitindo que sua figura seja desconstruída, habitada, usada e até ridicularizada em nome da arte.
Mais do que apenas criticar a indústria do entretenimento ou brincar com a ideia do culto à celebridade, Quero Ser John Malkovich vai além. Ao oferecer a chance de viver outra vida — mesmo que por apenas quinze minutos — o filme expõe a frustração de ser quem somos. É uma reflexão sobre o desejo humano de escapar, de assumir um outro corpo, uma outra mente, um outro destino. E é também uma metáfora poderosa sobre como moldamos e manipulamos os outros em busca de validação, controle ou prazer.

O humor do filme é estranho, muitas vezes desconcertante, e está sempre à beira do trágico. As situações são tão absurdas que nos pegamos rindo antes de perceber o quão perturbadoras elas realmente são. Ao colocar o espectador dentro da mente de um homem — e permitir que outros personagens literalmente habitem esse espaço — Jonze e Kaufman brincam com nossos próprios limites de empatia e voyeurismo. O filme nunca entrega uma resposta simples, e é essa recusa em ser decifrado que o torna inesquecível.
No fim das contas, Quero Ser John Malkovich é menos sobre Malkovich e mais sobre o que significa ser. É uma viagem vertiginosa pelas dobras da consciência, onde o real e o surreal se sobrepõem com naturalidade assustadora. Poucos filmes ousaram tanto e saíram tão ilesos. É possível rir, refletir e se perder completamente no caminho — e isso não é um defeito, é um convite. Porque talvez, no fundo, todos nós desejemos um portal para fora de nós mesmos. E se for através de John Malkovich, por que não?




