Emmanuelle

(2024) ‧ 1h47

02.07.2025

"Emmanuelle": O erotismo que se perde na tentativa de sofisticação

Emmanuelle, clássico símbolo do erotismo europeu dos anos 1970, ressurge com nova roupagem pelas mãos da premiada diretora Audrey Diwan. Em um tempo em que a sexualidade no cinema tenta se libertar de antigos tabus e buscar novas linguagens, essa releitura tinha tudo para ser provocante, ousada e libertadora. Mas o que vemos é uma produção elegante e bela, sim, porém fria e por vezes distante de qualquer calor humano — muito menos do desejo.

A protagonista, interpretada por Noémie Merlant, embarca para Hong Kong com a missão de avaliar um hotel de luxo. Mas, como na versão original, seu real objetivo parece ser menos profissional e mais íntimo: encontrar uma forma de prazer que transcenda o comum. Ela se entrega a experiências sensuais, encontra figuras enigmáticas como Kei (Will Sharpe), e navega por esse cenário exótico com curiosidade, mas raramente com uma paixão genuína.

O roteiro, coescrito por Rebecca Zlotowski, até flerta com temas interessantes, como o poder do anonimato, o controle feminino sobre o próprio corpo e o fascínio pelo proibido. No entanto, o que poderia ser uma jornada de autodescoberta acaba se tornando um desfile estético de silêncios longos e gestos lentos, onde a languidez vira apatia e o erotismo se dilui em poses estudadas.

Ao invés de mergulhar de cabeça na fantasia ou no escândalo — como fez o original — essa versão se mostra preocupada em parecer sofisticada. E nessa tentativa, esquece que o erotismo precisa de risco e intensidade. As cenas íntimas carecem de tensão ou surpresa, quase sempre travadas por uma mise-en-scène que prioriza o bom gosto ao invés da entrega.

Naomi Watts, como a gerente do hotel, e Will Sharpe, como o objeto de desejo enigmático, têm presenças magnéticas, mas suas atuações soam contidas, como se estivessem sempre a um passo de dizer algo importante… e nunca o dissessem. O filme opta por esse tipo de frustração constante — não como estímulo, mas como limitação.

Visualmente, Emmanuelle impressiona: o design de produção e a fotografia são luxuosos, e há uma estética refinada que captura bem a atmosfera artificial do hotel e seus segredos. Mas a beleza plástica não compensa a falta de alma. A impressão é a de que o filme não quer sujar as mãos, nem mesmo quando flerta com fetiches ou tabus.

Audrey Diwan, com seu olhar sensível e autoral, talvez tenha sido contida por seu próprio bom gosto. Em vez de reinventar Emmanuelle como uma mulher moderna que explora seus desejos com intensidade e complexidade, nos entrega uma figura etérea, quase inatingível. E o erotismo, que deveria ser o cerne do longa, se esvai como vapor em um quarto de luxo — bonito, mas frio.

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AUTOR

Felipe Fornari

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