Esse filme francês, com direção de Céline Sallette e atuação belíssima da também belíssima Charlotte Le Bom — Niki de Saint-Phalle é uma biografia sincera.
Sou suspeita, porque amo filmes biográficos — mas este está maravilhoso. Trata de temas sérios como violência física e simbólica contra a mulher, maternidade e relações familiares de forma fluida, sem recorrer à obviedade moral ou a militâncias.

Não é um drama pesado nem uma biografia difícil de acompanhar. É um mergulho delicado em lembranças violentas e destrutivas, é amargo e doce, profundo sem ser cansativo ou nos deixar à deriva.
O filme mostra como dor e loucura foram canalizadas para a arte por uma mulher que foi, literalmente, submetida a choques elétricos — um retrato cruel da forma como a saúde mental era tratada nos anos 1950 e 1960. A resistência e dedicação em descobrir e externalizar sua arte a salvou de si mesma.
Suas relações amorosas e familiares, uma Niki dividida entre maternidade e arte, a efervescências boêmia e artística de Paris, o figurino — tudo são detalhes que nos conduzem pelo olhar e sentido da artista. Somos atravessado por sua pulsão e compulsão criativa em cada gesto, em cada cena. Vemos a mulher, sentimos a artista.

Mesmo sem entender de arte na Paris dos anos 1960, como telespectador, sentimos que estamos assistindo ao nascimento de um movimento artístico revolucionário, marcado pelas cicatrizes do pós-guerra.
Curiosamente, não são suas obras volumosas e de cores vibrantes que encantam no filme — elas não aparecem, se me permitem este spoiler. Ainda assim, conseguimos sentir e compreender todo o processo criativo em cada obra, em cada tela a qual imaginamos em detalhe, sem nada ver.
Ao final, acredite, seus dedos vão automaticamente ao Google procurar por vida e principais obras de Niki.







