Neirud é um mergulho afetivo e político por entre os bastidores do Brasil popular, onde o circo se confunde com o cotidiano e as histórias esquecidas de mulheres negras e lésbicas ganham o espaço que sempre lhes foi negado. No documentário, a diretora Fernanda Faya investiga a trajetória de uma figura próxima da sua infância — a misteriosa tia Neirud — para preencher as lacunas de uma memória familiar que, por muito tempo, se manteve silenciosa.
O gesto de resgate é conduzido com sensibilidade, e o que poderia ser apenas uma busca pessoal se revela uma potente narrativa coletiva. A cada descoberta, Faya amplia o escopo do filme: da crônica íntima sobre uma tia lutadora de circo à evocação de um Brasil que marginalizava corpos dissidentes, pretos e femininos. O resultado é um relato que não apenas emociona, mas também provoca, especialmente ao tratar com delicadeza do amor homoafetivo vivido por Neirud — um romance que atravessa décadas e preconceitos.

Boa parte da força de Neirud está na montagem, construída ao longo de cinco anos com a colaboração de Yuri Amaral. O filme navega entre imagens de arquivo, entrevistas, e depoimentos tocantes que desafiam a linearidade do tempo. Há um cuidado evidente na costura entre o passado e o presente, entre o que foi vivido e o que sobreviveu como lembrança. Mesmo quando arrisca colocar a diretora como narradora e personagem de sua própria história — escolha que pode causar certo estranhamento — o filme mantém a coerência emocional do projeto.
O universo circense, por si só, já carrega um forte componente de resistência, e Neirud valoriza essa dimensão ao mostrar como o circo, liderado por mulheres e migrando entre funções — do teatro à luta livre — se tornou um espaço de acolhimento e reinvenção. Neirud, enquanto figura real e quase mítica, encarna uma espécie de heroína queer brasileira, sobrevivente de violências, que se reinventou como artista e amou intensamente, à sua maneira.
Algumas passagens do documentário se aprofundam menos do que poderiam, e certos temas — como a racialização dos corpos no ambiente circense — mereciam ser mais escavados. Ainda assim, há uma riqueza de camadas que permite leituras diversas. O filme convida a olhar para além do que está dito, incentivando o espectador a perceber as ausências como parte essencial da construção narrativa.

Em tempos onde o afeto e a ancestralidade são caminhos para a resistência, Neirud se destaca como uma obra corajosa e necessária. Ao trazer à tona uma história que, em outros contextos, teria permanecido invisível, Fernanda Faya não apenas homenageia sua tia, mas inscreve no cinema brasileiro uma protagonista que é símbolo de luta, arte e liberdade.
Com seu tom íntimo e político, Neirud é daqueles filmes que permanecem ressoando muito depois da sessão. Uma carta de amor às mulheres que desafiaram o destino imposto e escreveram suas próprias histórias — ainda que, por muito tempo, ninguém estivesse disposto a ouvi-las.







