Dona Flor e Seus Dois Maridos

(1976) ‧ 1h50

26.11.1976

"Dona Flor e Seus Dois Maridos": Entre o desejo e a convenção

Adaptar Jorge Amado nunca foi tarefa simples, mas Bruno Barreto encontrou em Dona Flor e Seus Dois Maridos a medida exata entre a sensualidade do romance e um apelo popular que marcou época no cinema brasileiro. A história da baiana dividida entre o marido devasso e o companheiro correto, mas enfadonho, vai além da comédia erótica que muitos ainda associam ao filme: trata-se de uma reflexão saborosa sobre desejo, convenções sociais e a busca por equilíbrio numa sociedade marcada por contradições.

O longa nos apresenta a Vadinho, interpretado por José Wilker com um carisma irresistível, mesmo sendo um personagem repleto de falhas. Mulherengo, irresponsável e viciado em jogo, ele morre no auge do carnaval, deixando Dona Flor em prantos. Flor, vivida por Sônia Braga em uma atuação icônica, encontra estabilidade ao se casar novamente, mas percebe que a vida sem a chama da paixão se torna um peso. É quando o espírito do primeiro marido retorna, criando a equação improvável que dá título ao filme.

Barreto constrói a narrativa em um registro que oscila entre o realismo e o fantástico. O retorno de Vadinho, nu e zombeteiro, pode ser lido tanto como manifestação sobrenatural quanto como expressão do desejo reprimido da protagonista. Essa ambiguidade é um dos grandes méritos do filme, que nunca perde de vista o caráter popular da trama, mas a envolve com uma aura de crítica social, dialogando com as tensões políticas e culturais da época em que foi lançado.

Sônia Braga, aqui em uma das performances mais emblemáticas de sua carreira, encarna a figura da mulher dividida entre a tradição e a liberdade. Sua Dona Flor é, ao mesmo tempo, o arquétipo da esposa dedicada e a personificação da mulher que reivindica prazer e autonomia. É impossível não reconhecer nela uma síntese de muitas mulheres brasileiras, aprisionadas por padrões de conduta, mas ansiosas por romper barreiras.

Tecnicamente, Dona Flor e Seus Dois Maridos também impressiona. A direção de fotografia de Murilo Salles capta a atmosfera calorosa de Salvador nos anos 1940, enquanto o figurino e a cenografia contribuem para a imersão histórica sem perder o toque de teatralidade. A trilha sonora de Chico Buarque e Francis Hime reforça a mistura de melancolia e celebração que atravessa a narrativa, em perfeita sintonia com os dilemas da protagonista.

Ainda que o filme dialogue com o imaginário da pornochanchada, tão presente no cinema da década de 1970, Barreto consegue elevá-lo a um patamar distinto, evitando que a nudez e o erotismo se reduzam ao vulgar. Ao contrário, esses elementos surgem como parte fundamental da trama, símbolos de uma vitalidade que a sociedade tentava domesticar. O equilíbrio entre apelo comercial e profundidade narrativa talvez explique o enorme sucesso de público, sem que isso tenha esvaziado sua força artística.

Várias décadas após sua estreia, Dona Flor e Seus Dois Maridos segue como um marco do cinema nacional. É um filme que diverte, provoca e se mantém atual ao refletir sobre o eterno conflito entre desejo e convenção. Minha experiência ao revisitá-lo foi a de encontrar uma obra madura, sedutora e consciente de seu papel histórico, ainda que marcada por alguns excessos próprios de sua época.

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AUTOR

Felipe Fornari

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