Lançado em meio à chamada Retomada do cinema brasileiro, O Quatrilho é um filme que combina melodrama e registro histórico para revisitar o universo dos imigrantes italianos no Rio Grande do Sul no início do século XX. A trama acompanha dois casais amigos que passam a viver juntos sob o mesmo teto, mas o convívio acaba revelando uma paixão inesperada entre Teresa (Patrícia Pillar) e Massimo (Bruno Campos), abalando convenções e provocando rupturas profundas.
O longa dirigido por Fábio Barreto não se limita a contar uma história de adultério. Há um cuidado evidente em construir um retrato da comunidade ítalo-brasileira, com suas tradições, tensões religiosas e a busca pela prosperidade em um país ainda em formação. O filme mergulha em costumes, desde o pisar da uva até as práticas cotidianas das famílias, criando uma ambientação que vai além da trama romântica. Essa escolha confere densidade cultural e reforça o peso das escolhas pessoais diante das regras sociais.

Visualmente, O Quatrilho impressiona. A direção de fotografia de Félix Monti explora a beleza da serra gaúcha e a arquitetura preservada da região, evocando um tempo em que tradição e modernidade começavam a se chocar. Figurinos e cenários também ajudam a compor a sensação de autenticidade, transportando o espectador para o universo dos personagens e reforçando a ideia de que as emoções ali vividas dialogam diretamente com o contexto histórico.
O elenco se destaca pela entrega, ainda que em papéis um tanto arquetípicos. Glória Pires e Alexandre Paternost constroem personagens mais contidos, enquanto Patrícia Pillar e Bruno Campos vivem a chama da transgressão. Em papéis secundários, nomes como Gianfrancesco Guarnieri e Cecil Thiré oferecem camadas adicionais, contrapondo visões religiosas distintas — uma mais humanista, outra mais rígida. Essas presenças enriquecem o debate sobre moralidade e sobre o choque entre emoção e pragmatismo.
Apesar de seus méritos, o roteiro adota um tom didático que, em alguns momentos, reduz a força da narrativa. O encadeamento das cenas é frequentemente previsível, e a direção de Barreto, por vezes, pesa a mão na condução dos conflitos. Essa abordagem diminui o espaço para ambiguidades e para que o espectador atue mais ativamente na interpretação. Ainda assim, o filme consegue manter o interesse ao equilibrar a dimensão íntima do romance com o pano de fundo histórico.

Mais do que uma história de traição, O Quatrilho fala sobre escolhas — e sobre como a busca pela felicidade individual entra em choque com os códigos de uma sociedade estruturada em valores tradicionais. Ao expor a fragilidade das convenções e o desejo humano por liberdade, o longa amplia seu alcance para além do romance e se afirma como reflexão sobre transformações sociais.
Com uma produção cuidadosa, atuações sólidas e uma recriação de época convincente, O Quatrilho é um marco do cinema nacional dos anos 1990. Mesmo com alguns tropeços narrativos, o longa se sustenta como drama envolvente e como registro de um momento importante, tanto da história do Brasil quanto da trajetória de seu cinema. Uma prova de que, quando tradição e desejo se confrontam, o resultado é sempre de impacto duradouro.





