Diferente do longa conterrâneo Close (premiado e excelente), de Lukas Dhont, o também belga, só que do lado holandês, Corações Jovens foge da tragédia e aposta na normalidade da adolescência como tom para contar a história de dois meninos de 14 anos descobrindo tudo que vem junto com o primeiro amor. Na puberdade tudo parece ser a pior dor já sofrida, seja no cumprimento de rituais como o uso de álcool, festas e relacionamentos, ou também no difícil diálogo com os adultos ao redor. É aí que Anthony Schatteman, na sua estréia em longas, prefere mover a história que quer contar para dentro de tudo que acompanha a adolescência, só que dessa vez entre dois meninos em vez do corriqueiro e heteronormativo garoto encontra garota.

Corações Jovens nos apresenta Elias (Lou Goossens), que vive com sua família no interior, fazendo coisas muito frequentes como ajudar o avô no sítio, andar de bicicleta e conviver com seus amigos da escola. O pai, Luk (Geert Van Rampelberg), é cantor e está fazendo sucesso na região, a mãe ajuda nessa carreira. O irmão um pouco mais velho tem aquela fama de pegador e rebelde e, além disso, Elias tem uma melhor amiga, a Valerie (Saar Rogiers), que todo mundo acha que é sua namorada e que ele se acostumou ao fato de que talvez ela seja mesmo. Porém, a chegada do novo vizinho, Alexander (Marius De Saeger), um garoto da sua idade, muda tudo nessa vida pacata.
Alex se muda com a irmã menor e o pai, viúvo, e traz consigo uma maturidade impressionante. Já no dia que conhece Elias, andam de bicicleta e se divertem juntos, e numa conversa sobre paixões e namoricos o recém-chegado conta muito tranquilamente que namorou um menino no ano anterior. Não é isso que espanta Elias, mas o fato de que talvez ele não sinta por Valerie o que Alex falou sobre amor. Porém, para Elias nunca existiu no seu horizonte a ideia de ele se apaixonar por outro garoto, menos talvez pelo fato de ser algo impossível e mais pela socialização binária corriqueira entre crianças e adolescentes.

Corações Jovens atravessa esse amadurecimento de Elias em busca de compreender todos os sentimentos que o atravessam em uma idade particularmente confusa no sentido que estamos todo mundo tentando nos situar diante do mundo. Os dois meninos brigam e se divertem juntos como qualquer amor nascendo. Algumas das cenas mais bonitas são os dois passeando pelas ruas de Bruxelas, num vislumbre de que podem existir como namorados durante uma ensaio de uma drag queen, no bar dos tios de Alex. Em outra, durante uma festa a fantasia, Elias de Romeu (à la Di Caprio, de Baz Luhrmann) e Alex de Coringa se encaram estando desconfortáveis por pertencerem à histórias diferentes.
Anthony Schatteman aposta nessas construções entre dor e amor, descoberta e perda da inocência, para dizer que amar sempre vale a pena e que o mundo pode tranquilamente se acomodar no respeito pelo desejo alheio. Crescer é complexo o suficiente e pelo menos na ficção o preconceito pode ser um vilão fácil de eliminar. É isso que Corações Jovens nos entrega muito bem.







