Hanami

(2024) ‧ 1h35

Entre partir e permanecer: a memória silenciosa de uma infância moldada pela ausência

Renata Barbosa

Dirigido por Denise Fernandes Hanami é um drama poético ambientado na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, que mergulha na infância e adolescência de Nana. Desde os primeiros minutos, o filme estabelece seu tom contemplativo por meio de silêncios prolongados, sons do mar e paisagens vulcânicas que moldam o universo emocional da protagonista. A natureza compõe um cenário de delicada introspecção.

A trama inicia com o nascimento de Nana e a partida de sua mãe, Nia, que a deixa sob os cuidados da avó para emigrar. Esse gesto inaugural, a separação, ecoa ao longo de toda a obra. A ausência materna não é tratada como abandono dramático, mas como realidade estrutural de um território. Assim, o filme já anuncia um de seus temas centrais, os dilemas entre partir e permanecer, sonho e raiz, necessidade e pertencimento.

Na primeira parte, acompanhamos a infância de Nana imersa na vida comunitária com tios e primos. É nesse cotidiano que o longa encontra sua maior força estética. As histórias contadas pela avó têm sabor de memória ancestral; as brincadeiras infantis se misturam ao vento e à poeira da ilha; e pequenos rituais, como o trançar dos cabelos ou o uso de ervas medicinais (o simbólico “sabão de feiticeira” para curar febres), tudo beirando o realismo mágico.

O cuidado coletivo é um dos eixos mais sensíveis do filme. A ausência da mãe é suprida por uma rede feminina forte, composta pela avó e por outras mulheres que sustentam o cotidiano, dimensão comunitária revela uma ética do cuidado. Ao mesmo tempo, evidencia-se o impacto silencioso das partidas, pois aqueles que ficam aprendem a conviver com a espera e com a memória.

Na segunda parte, há um salto temporal para a adolescência de Nana, que surge como uma adolescente introspectiva e responsável. Parte da família que emigrou retorna para férias na ilha, onde acontece o reencontro com a mãe desconhecida, construído a partir de afetos contidos e silêncios, sem confrontos. A ausência de ressentimento explícito diante da mãe reforça a complexidade emocional da personagem, que parece compreender a realidade da emigração antes mesmo de julgá-la. As refeições familiares festivas, com a mesa como espaço simbólico de união, mostra que o afeto persiste mesmo em meio às ausências.

O filme é demasiadamente lento, evita picos dramáticos mais intensos, e deixa de explorar os conflitos subjascentes. Ainda assim, se destaca como uma obra sensível sobre identidade, pertencimento e memória. Ao retratar a infância e a adolescência de Nana em meio às paisagens vulcânicas da Ilha do Fogo, entre partidas e retornos, silêncios e encontros, a obra sugere as marcas invisíveis que moldam quem fica e quem parte, e a força das raízes mesmo diante do desejo de voar.

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