Narciso é um filme que vem para somar com peso na ilustre categoria dos “feitos em casa”. O longa nacional é um retrato extremamente sensível, artístico e poderoso sobre identidade, pertencimento e família.
Narciso (Arthur Ferreira) é um menino que mora em um abrigo temporário, para jovens em processo de adoção. O único motivo para ele estar ali é que acaba de ser devolvido pela família adotante, e a vida, pelo menos nesse momento, parou de fazer sentido. Triste, mesmo às vésperas de seu aniversário, seu amigo Alexandre (Faiska Alves) o presenteia com uma bola de basquete que vem com uma surpresa: se ele acertar três cestas seguidas o “Gênio da Bola” (Seu Jorge) aparece para conceder um desejo. Desacreditado, Narciso faz os pontos, e quando o gênio aparece, tudo que ele quer é uma família.

Essa é uma história que já começa a impactar nos primeiros minutos. O espectador vai se encontra abaixo do personagem principal, graças a um jogo de câmera penetrante que deixa claro o quão “por baixo” ele se sente, afinal, é o dia em que está sendo devolvendo ao abrigo de onde veio e que deveria ser temporário. O nível de tristeza atravessa e se instala, para depois ser embalado com uma canção. Com um cenário desse nível instaurado, a trama passa a se desenrolar.
O olhar artístico do diretor Jeferson De é muito forte, com um lindo trabalho de cor, que age quase como um personagem, além de outros símbolos espalhados por toda a narrativa que trazem tantos significados conhecidos quanto novos.
Em dado momento do filme, quando o personagem está aprendo com o desejo que faz ao gênio, as cenas se tornam preto e branco, intensificando a ideia de que as situações na vida raramente são absolutas, definitivas, ou simplesmente divididas entre o certo e o errado, isso ou aquilo. Existe mais, existe um espectro inteiro de cor.

Outro ponto interessante é o nome do personagem principal. Narciso, no mito grego, se apaixona pelo próprio reflexo, e no filme, ele é um menino preto que está descobrindo sua identidade, a olhar para si mesmo e ver valor, mesmo quando tudo ao seu redor diz que ele não é suficiente. E aqui vale destacar duas atuações, primeiro a de Arthur Ferreira, que é muito expressivo, tanto quando está atuando com falas, quanto nos momentos em que tudo que ele precisa dizer vem dos olhos. Em segundo lugar, a atuação de Bukassa Kabengele, que dá vida ao personagem Joaquim, e é responsável pelo melhor tipo de magia e encantamento que existe: aquela que é real e que se estivermos atentos passa por nós também.
Não há nada melhor do que testemunhar a vida exatamente como ela é, e poder assistir isso acontecendo no cinema é um balde cheio de pipoca, não tem preço.






