A Fúria funciona como um reencontro de Ruy Guerra com os temas que atravessaram grande parte de sua filmografia: a luta de classes, a violência institucional e a permanência de estruturas autoritárias no Brasil. Décadas depois de Os Fuzis e A Queda, o cineasta retorna a esse universo ao lado de Luciana Mazzotti, mas agora abraçando um tom ainda mais delirante, teatral e explicitamente simbólico. O resultado pode soar excessivo em vários momentos, porém também carrega uma energia rara no cinema político contemporâneo.
A premissa fantástica do homem que retorna da morte para confrontar seus antigos inimigos estabelece imediatamente o caráter alegórico da narrativa. Mário não é apenas um personagem; ele representa fantasmas históricos que o país insiste em enterrar sem nunca realmente resolver. Ao colocar esse morto-vivo diante de empresários, políticos e figuras religiosas caricaturalmente corruptas, o filme abandona qualquer pretensão de realismo para mergulhar numa espécie de pesadelo político carregado de ironia e indignação.

Essa escolha estética é justamente o que torna o longa tão fascinante quanto irregular. A Fúria não tem interesse em sutileza. Seus diálogos são inflamados, as metáforas são gritadas e os antagonistas surgem quase como monstros grotescos saídos de uma distopia tropical. Em alguns momentos, essa abordagem beira o panfletário e simplifica discussões complexas. Ainda assim, existe uma convicção tão intensa na encenação que o filme consegue transformar seus exageros em parte da própria identidade.
Ricardo Blat assume o protagonismo com presença marcante, dando a Mário uma mistura de melancolia e revolta que sustenta a narrativa mesmo nos trechos mais caóticos. Há também algo de emocionante em ver nomes históricos ligados ao Cinema Novo reaparecendo aqui, como Antonio Pitanga e Lima Duarte, reforçando a sensação de continuidade entre diferentes períodos do cinema político brasileiro. O filme parece constantemente dialogar com o passado enquanto observa um presente igualmente sufocante.
Visualmente, a produção aposta numa artificialidade assumida. Os cenários de estúdio, as projeções e a iluminação agressiva criam um espaço quase abstrato, como se todos os personagens estivessem presos num limbo entre a realidade e a fantasia. A câmera inquieta e os enquadramentos inclinados ampliam essa sensação de instabilidade permanente. Em certos momentos, o excesso visual cansa, mas também contribui para o clima febril que o longa deseja construir.

Mesmo quando tropeça em discursos didáticos ou em caricaturas óbvias demais, A Fúria mantém uma força difícil de ignorar. Há algo profundamente sincero na maneira como Ruy Guerra encara o cinema político ainda como ferramenta de confronto direto. Enquanto muitos filmes contemporâneos preferem metáforas mais discretas, aqui tudo explode em cena com fúria, sarcasmo e desespero. Pode não ser um longa elegante, mas certamente é um que pulsa convicção.
A Fúria talvez funcione menos como uma narrativa tradicional e mais como um manifesto cinematográfico de um diretor que segue inconformado aos 90 anos. Entre excessos, alegorias e momentos genuinamente poderosos, o filme reafirma a disposição de Ruy Guerra em provocar e tensionar o espectador. É uma obra imperfeita, mas viva, que transforma indignação política em espetáculo febril e caótico, exatamente como o país que tenta retratar.





Clique abaixo para ler nossas críticas:



