A Cidade do Futuro

"A Cidade do Futuro" é um filme de guerrilha, necessário em tempos de ódio e conservadorismo

15.06.2016 │ 15:41

15.06.2016 │ 15:41

"A Cidade do Futuro" é um filme de guerrilha, necessário em tempos de ódio e conservadorismo

No dia em que o amor é celebrado no Brasil, o mundo também acompanhou um dos maiores massacres com arma de fogo nos Estados Unidos, onde mais de cinquenta pessoas morreram em uma boate gay em Orlando, no estado da Flórida. No momento em que nos questionávamos sobre a intolerância que mata, o corajoso – além de necessário – A Cidade do Futuro, dos baianos Cláudio Marques e Marília Hughes, teve sua estreia no 5º Olhar de Cinema, em Curitiba, mostrando o amor de uma família nada convencional em um lugar pouco lembrado no sertão do Brasil.

A cidade de Serra do Ramalho surgiu nos anos de 1970, durante o assentamento de milhares de famílias deslocadas de seus lugares de origem por conta da construção da barragem de Sobradinho, na Bahia. No período de Ditadura Militar (que já se estendia por quase dez anos nessa época), as famílias não tinham muitas opções para lutar por seus espaços e acabavam acatando as ordens dos militares em nome de um suposto progresso da região. Foi buscando fazer um documentário sobre essa cidade e seus habitantes, que o casal de diretores Cláudio e Marília deram origem ao projeto de A Cidade do Futuro, conhecendo a história de um trio pouco comum, conseguiram mostrar a riqueza da realidade como matéria para a ficção e mostrar que o futuro se constrói até mesmo em lugares esquecidos pela História.

Aqui os jovens Milla, Gilmar e Igor irão subverter todos o conceitos preestabelecidos para suas vidas. Indo contra a ideia de fuga – ou mesmo a supressão de seus desejos e ações – eles decidem arcar com as consequências de suas escolhas. Milla está grávida de Gilmar, seu melhor amigo. Igor é amante de Gilmar e também se torna pai do bebê que vai nascer. Assim eles constroem a sua própria família, onde o amor deve e pode ser a base de algo novo, calcado na ideia de que a felicidade e a tolerância deveriam reger uma sociedade. Durante A Cidade do Futuro o espectador acompanha não apenas as vicissitudes da vida de cada um, mas seus dilemas internos e relações com a família, conceito que apesar de rígido na teoria, é flutuante na prática. Nenhuma das famílias apresentadas é completa como pede as tradições, todas são arranjos moldados pelas situações. Mas a intolerância é um bicho cego e raivoso, que rosna e arranha. Os três sofrem retaliações sociais, morais e verbais típicas que – infelizmente – vem se tornando recorrente no cotidiano, mas desistir aqui não é uma opção.

Contando a história particular de três personagens que refletem uma história local, o longa também constrói de dentro para fora, mostrando que planejamentos políticos afetam a particularidade das vidas – transposições de rios, construção de hidrelétricas e remanejamento de populações, por exemplo – não deslocam apenas pessoas e animais de seus habitats, mas também desloca histórias, promove adaptações e promove memórias. O que era para ser um documentário sobre a cidade de Serra do Ramalho acabou se tornando A Cidade do Futuro, pessoas que emergem do real para dialogar sobre o passado e o futuro desse lugar que começou do vazio, da mudança obrigatória, para se tornar o lar de todas essas famílias transpostas. Em certo momento, Milla nega ter que aceitar que são obrigados a ir embora do lugar em que nasceram, assim como seus pais fizeram quando obrigados a deixar seu passado, em contraste um senhor conta como acataram as ordens dos militares quando sofreram ameaças caso optassem à resistência, palavra essa que ganha força com os protagonistas.

A Cidade do Futuro apresenta uma direção de atores construída sobre a leveza, incutindo quase que uma espécie de inocência nos personagens. Mesmo vivendo numa cidade do interior, com regras baseadas na tradição, os personagens excêntricos naquele espaço transitam firmes e verdadeiros. A espontaneidade é bastante presente, mesmo nos momentos mais pesados, os personagens ganham força através de suas pequenas lutas cotidianas. A alternância entre planos abertos – alguns que mostram a beleza omitida do sertão – e outros fechados, focados na simplicidade das expressões, dá um alento poético ao filme. E a trilha sonora, às vezes urbana e eletrônica, dialoga de forma pouco convencional com a míºsica local sertaneja, com letras apaixonadas e sentimentais.

O que temos na história de Milla, Gilmar e Igor é um futuro, incógnito porém esperançoso, onde ninguém precise sair de onde se sinta parte. A Cidade do Futuro é um filme de guerrilha, como bem propôs os diretores antes da exibição, usando como arma o amor, necessário em tempos de ódio e conservadorismo. Em Serra do Ramalho, em qualquer esquina de metrópole ou interior do Brasil, que o amor seja o elemento do futuro, onde as lutas individuais estejam sempre em consonância com o todo.

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