A Invenção de Hugo Cabret

(2011) ‧ 2h06

17.02.2012

Um conto de amor ao cinema: “A Invenção de Hugo Cabret”

Em A Invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese nos entrega uma obra singular: um filme que, mesmo sendo adequado para todas as idades, oferece uma profundidade emocional rara e encantadora. Não há violência, linguagem inapropriada ou apelos explícitos; ao contrário, é um conto delicado e visualmente arrebatador que honra a magia do cinema desde os seus primórdios. Apesar de seu ritmo mais contemplativo, esta obra convida o espectador a mergulhar num mundo de sonhos e a redescobrir o cinema através dos olhos de Hugo, um jovem órfão cuja vida muda ao encontrar uma pista sobre o passado do cineasta Georges Méliès.

O filme, baseado no livro ilustrado de Brian Selznick, nos transporta para Paris nos anos 1930, em meio à movimentada Gare Montparnasse. Hugo (Asa Butterfield), que vive escondido nos recantos da estação, é um observador silencioso, responsável por manter os relógios funcionando. Em sua solidão, ele encontra uma conexão especial com Isabelle (Chloe Moretz), uma menina curiosa que compartilha seu amor por mistérios e aventuras. Juntos, eles embarcam em uma jornada para desvendar os segredos de um autômato deixado pelo pai de Hugo, levando-os ao universo dos filmes antigos.

Scorsese cria uma visão mágica de Paris, onde a estação se torna um microcosmo de histórias e encontros, com referências a clássicos cinematográficos que enriquecem o ambiente. Essa perspectiva é um tributo aos tempos do cinema mudo, enfatizando as influências visuais e os elementos de fantasia, lembrando-nos da primeira vez que muitos espectadores sentiram o encanto da tela grande. Há ecos de diretores como Jean-Pierre Jeunet e Terry Gilliam, mas Scorsese imprime sua marca, mostrando que seu talento para a narrativa é versátil e atemporal.

O diretor faz uma homenagem emocionante a Méliès, interpretado por Sir Ben Kingsley, um pioneiro que usou o cinema como ferramenta para expressar sua criatividade sem limites. Nos flashbacks que revisitam as gravações de filmes como Viagem à Lua, Scorsese explora a contribuição inestimável de Méliès para o cinema. Com cuidado, ele destaca a fragilidade da história do cinema, um tema que lhe é muito caro, ao lembrar o desaparecimento de muitas das obras do cineasta.

As atuações de Kingsley e Butterfield são fundamentais para que o espectador sinta o peso emocional do longa. Kingsley traz profundidade e melancolia a Méliès, enquanto Butterfield ilumina a tela com sua interpretação de Hugo, um menino cheio de curiosidade e determinação. Sacha Baron Cohen, em um papel mais sério, faz um ótimo contraste como o inspetor da estação, adicionando um toque de humor e humanidade a um antagonista que poderia facilmente se perder em caricaturas.

A tecnologia 3D é usada aqui com maestria, e Scorsese se torna um dos primeiros cineastas a utilizá-la para aumentar a imersão e a textura visual, em vez de tratar o efeito como um mero espetáculo. A câmera flutua pelo cenário de maneira fluida, especialmente na cena de abertura em que Paris é revelada em um voo panorâmico, nos levando de forma mágica à estação de trem. É uma prova do domínio técnico de Scorsese, que transforma a estética do filme em uma experiência verdadeiramente cinematográfica.

Além de sua beleza estética, A Invenção de Hugo Cabret é uma celebração dos primórdios do cinema. Scorsese, conhecido por sua devoção à história do cinema, cria uma verdadeira carta de amor aos filmes antigos. Ele enfatiza a importância de preservar a memória dessas obras, para que as gerações futuras possam conhecê-las e entendê-las. Em cada cena, sentimos seu compromisso com a valorização do legado deixado por figuras como Méliès.

Para os amantes do cinema, A Invenção de Hugo Cabret é uma joia que relembra as raízes e a magia que esse meio de expressão carrega. Mesmo aqueles que não conhecem Méliès poderão se encantar com a história de Hugo e Isabelle e com a beleza de uma época que continua viva nas telas. Assistir ao filme em 3D, pois ele realça a experiência, mas a história tem força o suficiente para se manter envolvente em qualquer formato.

Com A Invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese nos lembra por que amamos o cinema. É uma obra que nos faz sentir o mistério e a maravilha de uma arte que nos acompanha há mais de um século.

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AUTOR

Felipe Fornari

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