Tootsie, dirigido por Sydney Pollack, é uma das comédias mais inteligentes dos anos 1980, capaz de entrelaçar humor, crítica social e uma reflexão profunda sobre identidade e relações de gênero. A trama acompanha Michael Dorsey (Dustin Hoffman), um ator talentoso, mas intransigente, que encontra uma forma inusitada de voltar ao mercado de trabalho: criar a persona de Dorothy Michaels, uma atriz fictícia que conquista de imediato a atenção da indústria televisiva.
A premissa, que poderia se limitar a um simples disfarce cômico, rapidamente se transforma em um laboratório de transformação pessoal. Ao viver como Dorothy, Michael é obrigado a experimentar situações que nunca enfrentaria como homem, descobrindo em si uma nova sensibilidade e uma maneira diferente de lidar com o mundo. O filme, assim, se equilibra entre a comédia de equívocos e uma crítica afiada às desigualdades de gênero.

A força de Tootsie está no modo como Pollack conduz uma narrativa que, ao mesmo tempo em que diverte, também provoca reflexões. O relacionamento entre Dorothy e Julie (Jessica Lange) é central nesse processo: inicialmente marcado pela cumplicidade feminina, ele se complica à medida que Michael se apaixona por ela. Essa ambiguidade cria algumas das cenas mais memoráveis do longa, misturando ternura, desejo e frustração.
O roteiro brinca com as contradições da sociedade da época, expondo preconceitos e limites rígidos de papéis de gênero. Situações como a paixão do pai de Julie por Dorothy, ou a confusão de Sandy (Teri Garr), a namorada de Michael, ampliam a tensão entre aparência e verdade, mostrando como o disfarce gera não apenas situações cômicas, mas também dilemas emocionais complexos.
Dustin Hoffman entrega uma performance ousada, equilibrando a farsa com uma honestidade surpreendente. Sua atuação faz de Dorothy uma figura carismática e convincente, sem cair no exagero. Jessica Lange, por sua vez, oferece delicadeza e força, rendendo-lhe o Oscar de melhor atriz coadjuvante. O elenco de apoio, incluindo Charles Durning e Bill Murray, contribui para o tom ágil e espirituoso da obra.

Além do humor, Tootsie se destaca pelo impacto cultural que teve em seu lançamento. Através de um enredo aparentemente leve, o filme abriu espaço para discussões sobre feminismo, identidade e até mesmo sexualidade, sugerindo novas formas de pensar a masculinidade e as relações afetivas. Foi uma das raras produções de Hollywood da época a dialogar com esses temas sem perder o apelo popular.
No fim, Tootsie transcende a comédia romântica para se tornar um retrato de aprendizado e autoconhecimento. A jornada de Michael/Dorothy é tanto sobre conquistar um papel em uma novela quanto sobre compreender como ser uma pessoa melhor. É justamente nesse equilíbrio entre entretenimento e reflexão que o filme alcança sua grandeza, consolidando-se como um clássico atemporal.




