Em A Memória do Cheiro das Coisas, uma coprodução Brasil-Portugal, o diretor português António Ferreira apresenta uma temática que atravessa e perpassa todas as sociedades, em todas as épocas: a possibilidade do acerto de contas com o passado diante da finitude da vida.
O roteiro, escrito por António Ferreira e Tiago Cravidão, acompanha a rotina de um ex-combatente de guerra português, forçado pela família a residir em uma casa de repouso. Trata-se de Arménio, interpretado pelo ator português José Martins, um idoso octogenário, rude, grosseiro e viciado em cigarros, com uma trajetória de vida dedicada de forma abnegada ao exército português, no qual participou de diversas guerras coloniais, especialmente no processo colonialista em Angola.

Na casa de repouso, Arménio, em um primeiro momento, é cuidado por Jefferson, interpretado pelo ator brasileiro Robson Lemos. Depois, passa a estar sob o zelo de Hermínia, uma cuidadora negra interpretada por Mina Andala, atriz portuguesa de ascendência cabo-verdiana e são-tomense. É a partir do convívio com Hermínia que Arménio começa a enfrentar uma profunda crise existencial, um confronto entre o passado violento, os dramas pessoais de combatente, a fragilidade física da velhice e a possibilidade de buscar o perdão.
O filme apresenta uma construção narrativa lenta e gradual, que acaba, em certa medida, comprometendo o seu desenvolvimento e o envolvimento do público com a trama. O clímax, o momento de maior tensão e emoção, ocorre apenas na segunda metade da exibição, em razão da improvável amizade entre os protagonistas, Arménio e Hermínia. Essa relação, que tensiona temas como o racismo e o colonialismo estrutural, cresce de maneira delicada, intimista e empática, retomando o ritmo da produção.
António Ferreira nos brinda com um retrato profundo das relações interraciais, intergeracionais e entre gêneros, para além da decadência do corpo de Arménio. O que prevalece aqui é a ideia de que sempre é tempo de ressignificar as dores, superar os traumas, pedir perdão e reconciliar-se com aqueles e aquelas que magoamos ao longo da vida.

A produção se destaca por interpretações ao mesmo tempo intensas e contidas, que tornam os personagens memoráveis e emocionalmente envolventes. Essa conexão faz com que Arménio precise confrontar, agora, não os chamados “terroristas”, como ele se referia aos angolanos e angolanas que lutavam pela independência de seu país, mas as dores e culpas de um passado que insiste em assombrá-lo.
A transição para a morte é construída por meio de uma direção firme e sensível, que aborda o inevitável a partir das dores e alegrias de estar vivo, da precariedade da condição humana, lembrando-nos de que somos resultado de nossas vivências, de nossas memórias, sejam elas visuais ou olfativas, daquilo de que é feita a matéria da vida.




