A Mensageira, filme do diretor argentino Iván Fund, que também assina o roteiro e a montagem, foi o vencedor do Urso de Prata, prêmio do Júri no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025. Trata-se de um drama argentino-espanhol, filmado em preto e branco, que aborda a vida de Anika (Anika Bootz), uma menina que afirma possuir poderes mediúnicos, com uma especificidade: essa manifestação ocorre a partir da sua capacidade de se comunicar com animais, sejam vivos ou mortos.
Seus responsáveis são os avós, ao mesmo tempo oportunistas e protetores, Myriam (Mara Bestelli) e Roger, uma relação contraditória, marcada ao mesmo tempo pelo afeto quanto pela exploração de uma pré-adolescente. Eles vivem na zona rural da Argentina. A trama se desenrola a partir da capacidade desses adultos de explorar a habilidade única e rara de Anika. Eles administram uma espécie de consultoria e acolhimento animal como forma de garantir a sobrevivência e obter eventual lucro.

Um dos destaques da produção é a belíssima fotografia, assinada por Gustavo Schiaffino, com direção de arte de Adrián Suárez, que exploram paisagens bucólicas e ressaltam a tranquilidade, a simplicidade e a conexão com a natureza.
É interessante ressaltar que o filme começa com uma tomada única: uma pessoa se aproxima por uma estrada escura, vazia e empoeirada do interior da Argentina, com um andar tenso e apressado. Ao se aproximar, pede ajuda, não para si, mas para sua tartaruga de estimação.
A partir desse momento, os personagens são apresentados em todas as suas contradições e ambiguidades, em um tom enigmático e obscuro. A Mensageira é uma espécie de road movie pessoal e intimista, no qual somos convidados a acompanhar a trajetória de uma menina e de seus dois avós. A estrada torna-se, assim, mais um personagem: um espaço simbólico que poderia ser definido como um lócus onde o transcendental, a possível fraude, a enganação ou a alteração do status prevalecem.

Toda essa complexidade pode ser descrita a partir da protagonista, Anika, que vive uma infância perdida e condicionada aos determinantes impostos por seus responsáveis. Eles partem em uma jornada, atravessando pequenas cidades, nas quais passam a oferecer sessões em que a capacidade da criança é amplamente divulgada: escutar, interpretar e traduzir para os humanos as mensagens dos animais, sejam elas de ajuda, agradecimento, tristeza, dor ou revolta.
Uma coisa é certa: o filme não responde à principal dúvida, qual seja, se estamos diante de um dom natural ou de uma realidade forjada pelos interesses espúrios de adultos, uma fraude montada com o intuito de sequestrar e condicionar a infância de Anika.
O que prevalece é a certeza de que a infância é um bem precioso, cuja natureza deve ser preservada a qualquer custo, naquilo que tem de mais belo e genuíno: sua ingenuidade, amorosidade e empatia com as dores e alegrias dos outros, sejam eles humanos ou animais sencientes.







