A Ovelha Negra

11.02.2016 │ 09:00

11.02.2016 │ 09:00

A criação de ovelhas na Islândia é uma – se não for a mais – importante cultura pecuária do país. São cerca de 800 mil ovelhas para uma população um pouco acima dos 300 mil habitantes. Centrado na presença forte desse animal em um país tão pequeno, o diretor Grímur Hákonarson apresenta a tragicomédia A Ovelha Negra, filme vencedor da mostra Un Certain Regard (Cannes 2015), tratando de uma ausente relação entre irmãos com um laço estreito através da criação dos animais.
Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson) são dois irmãos que vivem em um vale deserto da Islândia. Ambos moram em casas vizinhas mas não se falam há cerca de 40 anos, usando apenas um cão que circula entre os terrenos carregando bilhetes. Sabe-se pouco o que aconteceu, apenas que ambos são dois dos melhores criadores de ovelhas da região. Gummi é o irmão mais jovem, plácido e focado. Já Kiddi é explosivo, alcoólatra mas igualmente centrado na criação das ovelhas. Após a descoberta de uma virose entre os animais de Kiddi durante o outono, toda a região deve abater seus rebanhos e passar o longo inverno se adaptando à ideia de viver sem a criação pelo período de dois anos.
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Mas o que os irmãos vão fazer sem seus rebanhos? Usando um estilo que remonta ao documentário, Hákonarson dirige A Ovelha Negra mostrando o quanto é difícil sobreviver a solidão gelada do interior islandês sem o trabalho cotidiano. O frio, a pequena população e as distâncias moldaram os meios de vida dos islandeses. É de forma muito natural que a câmera passeia pelo cotidiano dos irmãos, principalmente Gummi que além de trabalhar duro com os animais, também aparece lendo, montando um quebra-cabeças ou cantarolando enquanto cozinha.
Tanto Kiddi quanto Gummi dedicaram suas vidas inteiras aos ovinos, dando início a toda uma linhagem campeã e criando laços inclusive afetivos com os animais. Gummi chama suas ovelhas pelo nome, as massageia e conversa com elas. No interior das casas, onde vivem sozinhos, os animais ornam o ambiente através de fotos e esculturas. Os carneiros e ovelhas são o que sobrou da família dos dois irmãos, que mesmo sem se falar ainda possuem essa conexão. Com personalidades opostas – assim como em qualquer família – o legado da criação de animais une os irmãos, criando uma espécie de metáfora de família e de pertencimento.
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Mesmo um espectador com um olhar acostumado a paisagens tropicais irá compreender facilmente o sentimento geográfico que Grímur Hákonarson constrói para A Ovelha Negra, entre o homem e a natureza em que pertence. O destaque vai para a simplicidade na qual os protagonistas são retratados e como os dois atores executam de forma primorosa a relação de irmãos independentes. Suas vidas bucólicas – sem deixar de serem divertidas e com passagens cômicas – de fato preenchem todo um possível vazio existencial. O cenário gélido e silencioso da Islândia, somado com a solidão pouco clichê dos protagonistas, é um conceito dentro do filme, definido pela ideia de que nem sempre o ser humano sente-se acomodado em grandes aglomerações e mesmo assim faz parte de um todo.
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A Ovelha Negra é um longa de concepções simples mas profundamente tocante. O filme caminha entre o documentário e a fábula sobre a relação de homens, animais e o sentimento de pertencimento, seja familiar, geográfico ou ao menos de lugar na natureza. Ao fim, saímos do filme com uma sensação de que o mundo é maior que selvas de concreto, ônibus lotados e pequenas obsessões cotidianas.
Nota:

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