Kill Bill: Volume 1 é, antes de tudo, uma explosão de estilo. Quentin Tarantino, seis anos após Jackie Brown, volta ao cinema com um projeto ambicioso, violento e visualmente deslumbrante — mas que chega aos cinemas em fatias. Dividido em duas partes por decisão do estúdio, o longa carrega todos os traços marcantes do diretor: narrativas não-lineares, referências cinematográficas em camadas e uma trilha sonora irresistível. O problema é que, apesar do impacto visual e da energia em cena, essa primeira metade deixa um sabor agridoce. Falta-lhe completude.
A trama é simples e brutal: uma mulher acorda de um coma de quatro anos após ser traída e quase assassinada por seus antigos companheiros de profissão — assassinos de aluguel liderados por um tal Bill. Ela perde o bebê que esperava e jura vingança. O que se segue é uma jornada sangrenta em busca de justiça (ou pura retaliação). Mas a jornada é interrompida pela estrutura da própria obra, que foi pensada como um único filme, mas se tornou dois, deixando o espectador apenas com o aperitivo.

Esse sentimento de frustração não vem da história em si, mas da forma como ela nos é entregue. Ao contrário de trilogias como O Senhor dos Anéis ou Matrix, que possuem arcos próprios por filme, Kill Bill: Volume 1 parece interrompido no meio de uma frase. Não há conclusão, nem mesmo temporária — só a promessa de mais sangue e respostas no volume seguinte. A experiência de ver apenas essa metade é como assistir a um trailer de duas horas para um filme que ainda está por vir.
Por outro lado, é inegável que há muito o que admirar aqui. As cenas de ação são vibrantes e coreografadas com maestria, homenageando o cinema de artes marciais, o samurai exploitation e até o anime. O banho de sangue é propositalmente exagerado, criando um efeito mais cômico do que perturbador — a violência é estilizada ao ponto de parecer uma dança, o que é típico do cinema de Hong Kong ao qual Tarantino presta reverência. O segmento em animação que narra o passado da personagem O-Ren Ishii é um dos momentos mais criativos do filme.
No entanto, para quem conheceu Tarantino através dos diálogos afiados de Pulp Fiction: Tempo de Violência ou da construção de personagens em Jackie Brown, Kill Bill: Volume 1 pode parecer um exercício de forma acima de conteúdo. A Noiva, interpretada com intensidade por Uma Thurman, é mais um símbolo do que uma figura emocionalmente complexa. Admiramos sua resiliência, mas pouco nos conectamos com ela. Os vilões, por sua vez, são apresentados com estilo, mas ainda carecem de profundidade — algo que talvez venha no Volume 2.

A montagem não-linear, uma marca registrada do diretor, aqui serve mais como capricho do que necessidade narrativa. A escolha de mostrar a segunda vingança antes da primeira, por exemplo, soa gratuita. Essa decisão pode até funcionar visualmente, mas compromete o ritmo e confunde o espectador sem oferecer ganho narrativo. O uso de preto e branco, animação e slow motion enche os olhos, mas às vezes encobre uma estrutura que poderia ser mais coesa.
Em suma, Kill Bill: Volume 1 é um prato cheio para fãs do cinema asiático, dos excessos tarantinescos e de pancadaria estilosa. Mas também é um lembrete incômodo de como decisões comerciais podem comprometer a experiência de um filme. A obra tem potência, sim, mas falta-lhe equilíbrio. Por ora, temos uma bela vitrine. Se ela sustenta um bom filme ou não, só saberemos quando o Volume 2 enfim revelar o resto dessa história sangrenta.



Clique abaixo para ler nossas críticas:


