A Queda do Céu

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A luta dos povos Yanomami contra o povo da mercadoria: “Parem de nos exterminar e de destruir nossa terra floresta”

A Queda do Céu, documentário dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, é baseado no livro do xamã e líder dos Yanomami Davi Kopenawa e do antropólogo francês Bruce Albert, publicado na França em 2010. A produção se centra no ritual fúnebre chamado Reahu, que envolve todos os membros da comunidade de Watorikɨ. Trata-se de uma importante cerimônia Yanomami que reúne todos os familiares do falecido, com o objetivo de encerrar todos os seus registros e memórias. Queimam-se tudo o que pertencia à pessoa, suas plantações, adornos, arco e flecha.

Aqui prevalece o exercício coletivo do apagamento e do esquecimento, uma maneira dos integrantes contribuírem para o descanso da alma daqueles que não estão mais entre nós. “Nós nascemos aqui e, por isso, enterramos nossas cinzas aqui; assim, continuamos com a mãe terra.” O ritual aproxima os membros da comunidade para chorar a saudade em uma uma celebração sábia, uma forma de diálogo cerimonial com forte carga emocional e cercado de simbolismos, desde a preparação da carne e da comida, feita durante a noite, até o canto forte e permanente que ecoa por toda a floresta.

A cena de abertura é impactante e dura cerca de nove minutos ao mostrar a caminhada pela estrada dos Yanomamis, com Davi à frente, lenta, gradual e progressiva. Essa sequência nos convoca a reconhecer a grandeza dos indígenas e a sua conexão com a natureza. Essa mesma estrada é retomada em outros momentos, proporcionando ao público uma maior aproximação com os membros da comunidade Yanomami.

A estrada, ao mesmo tempo em que significa respeito aos mortos, também representa o caminho de entrada para os invasores, para as epidemias e para aqueles que chegam com a intenção de destruir a terra, a mata, os rios e a floresta. O garimpo chega e a floresta morre; sua fumaça é a marca do assassinato dos antepassados. Porém, podemos atribuir outro sentido, que na verdade é a mensagem final do documentário: mesmo diante de todos os desafios impostos, os Yanomamis continuam vivos e seguindo o seu caminho.

A direção sensível permite uma profunda imersão na vida e no cotidiano da comunidade, dividida entre a preservação dos seus rituais, práticas, da preservação da floresta e o medo e risco iminente provocados pelo “povo da mercadoria”, referência aos brancos. A câmera se movimenta como forma de apresentar toda a dinâmica e o funcionamento da comunidade, evidenciando o cotidiano, as caminhadas, as danças e as trocas entre os seus membros.

O filme demonstra que o território Yanomami só existe graças à coragem e à organização coletiva, pois vivem e lutam juntos, mantendo os brancos afastados. Nesse sentido, apresenta uma crítica dura e severa contra o garimpo ilegal, o avanço das epidemias, a morte e a insegurança, frutos da ambição descontrolada trazida pelos estranhos, pelos brancos hostis, que os Yanomami chamam de epidemias xawara.

A mística Yanomami é o fio condutor de toda a narrativa, pautada no respeito, na sabedoria e no protagonismo de suas lideranças, que alertam para a degradação ambiental em curso, com sérias consequências para a humanidade: “Vocês podem correr com o dinheiro, pois, quando o vento da tempestade chegar, não será possível silenciá-los; virá o tempo do lamento.” Mas “enquanto existirem os xamãs, eles irão segurar o céu”, em clara manifestação de alteridade e generosidade, intrínseca aos valores indígenas.

Cabe destacar a observação do líder Yanomami de que sua comunidade não conhecia a palavra “vingança”; foram os brancos que ensinaram sua etimologia. Portanto, não desejam vingança, mas paz e respeito às suas vidas e à natureza. Ao final, o líder Davi Kopenawa faz um alerta para que não nos esqueçamos jamais: “Quando os Yanomami desaparecerem, o céu vai cair; a terra irá queimar, sofrerá com muitas chuvas e com tempo quente.” Assim, o “espírito do trovão” exterminará tudo e todos, e isso é o rastro do que a humanidade convencionou chamar de capitalismo.

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