A Quem eu Pertenço

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"A Quem eu Pertenço": Terra de silêncios

Em A Quem eu Pertenço, a diretora tunisiana Meryam Joobeur constrói um drama sombrio e inquietante sobre as feridas invisíveis deixadas pela radicalização e pela guerra. A história, contada em três capítulos, acompanha o retorno de um filho que partira para lutar, trazendo consigo não apenas uma esposa enigmática, mas também o peso do trauma e do medo que o acompanha. O reencontro com a família desperta segredos enterrados e tensiona uma comunidade que tenta, em vão, manter a normalidade diante do inexplicável.

Aicha (Salha Nasraoui) é o coração do filme — uma mãe que carrega a dor da perda, o medo do que desconhece e a esperança frágil de recuperar o filho que se foi. Sua casa, antes um refúgio, se transforma em espaço de desconfiança e silêncio, onde o amor materno se mistura à culpa e à dúvida. Joobeur filma esses espaços com sensibilidade quase ritualística, deixando que o vento, a poeira e os olhares digam mais que as palavras.

A presença de Mehdi (Malek Mechergui) e de sua esposa Reem (Dea Liane) desencadeia uma série de tensões sutis. A jovem, grávida e misteriosa, parece carregar uma sombra que ultrapassa o real. Há algo de fantasmagórico na maneira como o filme aborda a culpa e o luto, como se os mortos ainda habitassem os corpos dos vivos. O sobrenatural nunca é declarado, mas se insinua nos silêncios e nos gestos hesitantes — uma marca que torna a narrativa ainda mais perturbadora.

Assim como em As 4 Filhas de Olfa, de Kaouther Ben Hania, o olhar de Joobeur se concentra nas mulheres deixadas para trás — aquelas que precisam lidar com as consequências do extremismo e da ausência. Salha Nasraoui entrega uma atuação contida, mas devastadora, traduzindo em olhares o conflito entre proteger e denunciar, entre acolher e rejeitar. É nesse dilema que o filme encontra sua maior força emocional.

Adam Bessa, em um papel secundário, reforça a atmosfera de desamparo presente na aldeia. Seu personagem, Bilal, funciona como um espelho das masculinidades frágeis que orbitam o enredo, dividido entre o afeto e o medo. Ainda que sua presença pudesse ser mais desenvolvida, ele contribui para ampliar o retrato social de uma comunidade em colapso moral.

Visualmente, A Quem eu Pertenço impressiona pela forma como transforma a paisagem tunisiana em um personagem. A fotografia, marcada por tons terrosos e uma luz difusa, traduz o peso do tempo e do desespero. Joobeur faz de cada enquadramento um fragmento de memória — como se o próprio solo guardasse os ecos do que não se pode dizer.

Sem buscar respostas fáceis, o filme termina como começou: envolto em mistério e dor. Aicha simboliza uma nação que tenta reencontrar sua própria identidade entre a fé e o vazio. Em sua estreia, Meryam Joobeur confirma uma voz potente, capaz de unir o real e o mítico, o político e o íntimo, num retrato profundamente humano de pertencimento e perda.

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