A Sombra do Meu Pai é uma produção semiautobiográfica e se passa em um único dia na metrópole nigeriana de Lagos, que foi a capital do país até o ano de 1991. A Nigéria é o maior país da África Ocidental, colônia da Grã-Bretanha até 1960. É a primeira produção nigeriana, em 80 anos de existência do festival de Cannes, que foi indicada para a competição oficial, recebendo a menção honrosa do júri da Caméra d’Or no Festival de Cannes, na seleção Un Certain Regard.
O pano de fundo do enredo é a crise eleitoral de 12 de junho 1993, resultado de um processo de transição para um governo civil, liderados pelo presidente militar Ibrahim Babangida. Os resultados obtidos após a apuração das urnas, embora não declarados pela Comissão Nacional Eleitoral (NEC), apontaram para a vitória do oposicionista Moshood Abiola, candidato do Partido Social-Democrata (SDP), sobre o governista Bashir Tofa, candidato da Convenção Nacional Republicana (NRC).

A Sombra do Meu Pai é um drama familiar que se propõe a relacionar perspectivas íntimas e políticas a partir da trajetória de um pai, obrigada pelas condições sociais, políticas e econômicas a viver longe dos seus filhos. Os dilemas e o sofrimento daquela família são narrados pari passu com as instabilidades políticas, enquanto realizam o caminho pela cidade de Lagos.
O que equivale dizer, os dilemas do pai, Folarim, interpretado pelo excelente Sope Dirisu, são parte constitutiva daquela realidade social. Chibuike Marvelous Egbo e Godwin Egbo, que interpretam os filhos, nos brindam com atuações intimistas, que em grande parte, se faz pelo silencia e as emoções contidas no olhar daquelas crianças, mesclando sentimentos de admiração e abandono pelo pai. As interpretações e a direção competente são a tônica do filme.
Primeiro filme dirigido por Akinola Davies Jr., no qual também assina o roteiro com seu irmão Wale Davies, foi inspirado na infância dos dois. O roteiro traz poucos elementos para que possamos compreender a natureza política de Folarim. O que sabemos é que vem de uma origem pobre, se traduzindo em um personagem profundamente enigmático e contraditório.

Da perspectiva da arte visual, a fotografia de Jermaine Edwards, ganha destaque ao privilegiar a concretude e a veracidade das contradições sociais inerentes a sociedade de Lagos, no qual o colorido e a estampa das roupas tradicionais convivem com a pobreza e a desigualdade, reconhecido como mais um personagem da narrativa.
O longa busca transformar uma experiência pessoal e intransferível, que também é coletiva, em luta pelo direito de identidade, reconhecimento social e memória histórica. A relação simbiótica entre o privado e o público, um dos fios condutores da produção, é apresentada por vezes com delicadeza, mas também com tensão e violência. Entre ausências e desejos de permanência, as rupturas, diante das fragilidades políticas são inerentes e nos convocam a refletir sobre o potencial da vivência em comunidade e que não estamos sozinhos. Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”.







