O filme iraniano Mãe e Filho, dirigido por Saeed Roustaee, é uma obra que, sem dúvida, surpreende, daqueles filmaços. Apresenta um retrato sensível e crítico da realidade social iraniana, em especial, no que diz respeito à condição feminina, e chama a atenção pela intensidade emocional e densidade temática que consegue articular.

A trama gira em torno de Mahnaz, interpretada por Parinaz Izadyar, uma enfermeira viúva, na casa dos seus 40 anos, que enfrenta o desafio de criar seus dois filhos em uma sociedade patriarcal. Mahnaz tenta equilibrar as responsabilidades maternas com expectativas sociais e o desejo de reconstruir sua vida afetiva. É importante situar a relação de Mahnaz com o filho mais velho, Aliyar, vivido por Sinan Mohebi, um adolescente intenso e rebelde, que inspira o título da obra, uma relação complexa e afetuosa. Aliyar, em sua rebeldia explosiva, está sempre envolvido em conflitos. Na escola, encarna o estereótipo do “aluno-problema”, chegando ao ponto de ser expulso. De um lado, Mahnaz se desdobra para lidar com toda a carga que a maternidade impõe, ainda mais desafiadora com a personalidade forte de Aliyar; de outro, Aliyar, lida com dificuldade de ser jovem diante das hipocrisias e rigidez das instituições. Outro ponto da trama, é o namoro de Mahnaz com Hamid, vivido por Payman Maadi, um tipo oportunista e irresponsável. Mas, por ser homem, segue privilegiado.
O ponto de virada do filme é a festa de noivado de Mahnaz com Hamid. Sem dar spoiler, acontecem grandes reviravoltas. Desde a necessidade de Mahnaz esconder a existência dos filhos para atender às exigências da família de Hamid; a decisão de Hamid de romper com Mahnaz e se envolver com sua irmã; até a tragédia com Aliyar. Uma sequência de eventos impactantes marcados por traição, perdas e rupturas.

O diretor consegue mostrar, pelo cotidiano de Mahnaz, as diversas camadas de opressão enfrentadas por mulheres na sociedade iraniana. Consegue revelar como essas opressões se manifestam tanto em instituições formais, como a escola e o sistema judicial, quanto nas relações familiares mais íntimas.
Os personagens masculinos como o noivo, o avô (ex-sogro) e o diretor da escola funcionam como representações de um sistema que perpetua desigualdades e limitações impostas às mulheres. Essa representação não é caricatural, mas crítica, evidenciando como o machismo se naturaliza em diferentes esferas sociais, revela como as estruturas sociais moldam os comportamentos masculinos, reforçando a crítica social presente no filme. Enfim, trata-se de uma produção que vai além de um drama familiar. É obra sensível, capaz de explorar a complexidade das emoções humanas, sem perder de vista sua dimensão política, além de trazer aspectos da realidade iraniana. Vale muito a pena, recomendo!







