Acabe com Eles

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O peso da culpa em "Acabe com Eles"

Felipe Fornari

Desde sua primeira cena, Acabe com Eles mergulha o espectador em um ambiente de tensão latente, onde o passado nunca está realmente enterrado. O filme de Christopher Andrews constrói um drama sombrio e inevitável, no qual o ressentimento entre duas famílias vizinhas se transforma em uma espiral de violência. A paisagem rural da Irlanda não é apenas um pano de fundo, mas um espelho do isolamento emocional dos personagens, em especial de Michael (Christopher Abbott), um homem consumido pela culpa e preso a um pai enfermo e a um estilo de vida em ruínas.

O acidente que matou sua mãe anos antes ainda ecoa em sua existência, moldando a relação com sua irmã Caroline (Nora-Jane Noone), que seguiu um caminho próprio ao se casar com Gary (Paul Ready), inimigo declarado da família. A crescente hostilidade entre os dois lados tem um catalisador claro: o roubo de carneiros por Jack (Barry Keoghan), filho problemático de Caroline. Mas essa rivalidade vai além de um simples conflito territorial – ela reflete gerações de mágoas não resolvidas, que agora encontram uma faísca para explodir.

A narrativa de Andrews evoca um fatalismo quase shakespeariano, onde cada escolha parece inevitável e cada erro leva a consequências irreversíveis. A influência de Akira Kurosawa é perceptível na estrutura fragmentada da história, que revisita eventos sob diferentes perspectivas, evocando Rashomon. No entanto, ao contrário da ambiguidade moral do clássico japonês, aqui a tragédia se desenrola com um peso inescapável, lembrando também a brutalidade cíclica de Os Banshees de Inisherin, mas sem o alívio cômico.

A trilha sonora de Hannah Peel amplifica a atmosfera opressiva do filme, trocando os tradicionais tambores irlandeses por percussões inspiradas no sudeste asiático. Essa escolha sonora inusitada reforça o caráter ritualístico da tragédia que se desenrola, transformando cada cena em um prelúdio para o pior. O uso do som, aliado à fotografia fria e melancólica, contribui para a sensação de que estamos testemunhando algo predestinado – um ciclo de vingança e culpa que não pode ser interrompido.

O elenco é um dos grandes trunfos do filme. Barry Keoghan entrega mais uma performance intensa e imprevisível, consolidando seu talento para personagens instáveis. Christopher Abbott, por sua vez, carrega a dor e o remorso de Michael de forma sutil, transmitindo muito com o olhar e os silêncios. Paul Ready surpreende ao interpretar um antagonista que não é exatamente um vilão, mas um homem endurecido pelo rancor e pelas dificuldades da vida no campo.

O que impede Acabe com Eles de ser uma obra-prima absoluta é a sensação de que sua estrutura fragmentada, apesar de instigante, por vezes parece um artifício narrativo mais do que uma necessidade real da história. Ainda assim, o impacto emocional do filme permanece forte, e Andrews demonstra um controle notável sobre o ritmo e a tensão, especialmente para um diretor estreante.

Ao final, Acabe com Eles deixa o espectador com uma sensação de desolação, como uma noite gélida nas terras irlandesas. A tragédia não se manifesta apenas nas mortes e na violência explícita, mas na incapacidade dessas pessoas de se libertarem de seus próprios fantasmas. Em um mundo onde o perdão é uma moeda rara, resta apenas a perpetuação da dor.

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