Agnus Dei

06.06.2016 │ 18:47

06.06.2016 │ 18:47

A expressão Agnus Dei é usada para se referir à metáfora cristã de cordeiro de deus, que veio para pagar os pecados do mundo, ou seja, uma referência a Jesus como símbolo de salvação. Em Agnus Dei, longa franco-polonês dirigido por Anne Fontaine, essa expressão simboliza o nascimento de crianças originadas por atos cruéis de soldados invasores, no final da Segunda Guerra Mundial. Do latim, a escolha do título diferente do original – que apenas se refere à inocência do nascimento – mira em cheio a crítica apresentada no longa, tanto nas ironias da religião quanto nas referentes a guerra em nome de um bem comum.
A Segunda Guerra Mundial deixou um saldo que, mesmo depois de sessenta anos, ainda não temos consciência de seu peso na História. Em dezembro de 1945 a guerra havia terminado oficialmente como conflito, muitos dos países envolvidos entravam no momento doloroso da reconstrução e tentativas de retorno à uma sociedade organizada. Mesmo com a morte de Hitler e a derrubada do Nazismo, os países aliados também não representavam a paz e muito menos a segurança. Na Polônia, o exército russo causou – como fez em vários outros países dominados – terror e situações de violência tanto como o fascismo fazia no período anterior. É nesse contexto que conhecemos a história inspirada nas anotações de Madeleine Pauliac, uma jovem médica da cruz vermelha francesa, que durante sua estadia na Polônia, atende um convento invadido por soldados russos que, por sucessivas vezes, estupraram as religiosas, matando algumas e engravidando outras.
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Em Agnus Dei a médica é representada pela personagem Mathilde (Lou de Laâge), uma jovem assistente da cruz vermelha, construída sobre a ideia de liberdade como mulher, saindo da casa dos pais em busca de um ideal e com uma vida sexual bem resolvida. Mathilde contrasta com as freiras enclausuradas do convento que passa a ajudar, mas tudo é apenas aparente e essas mulheres, que a principio parecem ser iguais segundo seus votos e vestimentas, se mostram como personagens particulares com o desenvolvimento da trama, tendo cada uma sua história e ambições. É com a construção de sororidade entre as religiosas e Mathilde que o filme apresenta uma história de alteridade e respeito mútuo entre mulheres.
Claro que as relações não acontecem de forma simples e automática, todas as personagens precisam contornar os mais variados obstáculos que vão dos príncipios da fé – e a dúvida dela – até as leis de sobrevivência em um mundo que se mostra tão cruel, até mesmo com quem que prega o bem. Os conflitos pessoais de cada uma em Agnus Dei acabam se tornando pontos para uma somatória que irá resultar na perseverança, luta e ajuda mútua entre si, resultando nos grandes momentos do longa. Vale observar que essas imbricadas relações se dão através de gestos e ações universais, já que o filme se passa na Polônia com um elenco metade polonês e outra metade francês. Fontaine e elenco conseguiram manter a riqueza de duas línguas totalmente diferentes, conduzindo as relações apenas através dos gestos e emoções.
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Fazendo pouco uso de trilha sonora comum no cinema, o filme aproveita os cantos gregorianos e peças de música clássica para dar ênfase nas ações de personagens, assim como para ambientar os bucólicos cenários de neve, do convento e outras situações propostas no roteiro de Sabrina B. Karine e Alice Via. Além do trabalho de reconstrução de uma situação real pouco explorada nos meios oficiais, Agnus Dei consegue dar conta também dos conflitos religiosos enfrentados pelas mulheres violentadas, além da própria noção de Mathilde enquanto mulher nessa sociedade surgida no pós-guerra. Colocando em cheque a fé, o filme consegue passar por vários temas recorrentes ainda hoje no século XXI, fazendo o espectador se questionar se essas situações são realmente propiciadas por um momento ou enraizadas – e intensificadas – em situações de vulnerabilidade política e social.
Em entrevista a diretora se mostra indignada pela forma que os estupros foram omitidos por um longo tempo até mesmo por historiadores numa tentativa de, talvez, mostrar como os aliados fizeram o certo em derrotar a Alemanha e são apenas os mocinhos, sem ações agressivas nos meios que dominaram. A verdade é que essa situação de subjugação e violência acontece todos os dias, horas e segundos no mundo inteiro. Não é apenas o horror da guerra que torna homens em seres que agem apenas por instinto, é também uma cultura do estupro como instrumento de dominação em várias sociedades. Dói aos olhos – e não apenas eles, como o corpo todo – perceber nas feições das personagens os relatos de que sofreram violações não apenas de seus corpos mas também de suas crenças, independente quais sejam as do espectador.
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Há um diálogo bastante interessante entre Agnus Dei e o recente Ida (2014), do polonês Pawel Pawlikowski. Não apenas pelo fato de ter a ótima atriz Agata Kulesza, mas pela época de incertezas e a forma que isso repercutia em todos os setores da sociedade, incluindo a Igreja, que quando mostrada de perto não é tão imponente quanto se acredita. Apesar de ser um drama histórico, de forma nenhuma Agnus Dei é anacrônico, como se estivesse encapsulado no tempo. Aqui, Anne Fontaine traz uma visão ainda mais crítica do que o vencedor do Oscar, mostrando que a vulnerabilidade da mulher não depende da sociedade ou da crença e é iminente em todas as épocas, mas que a sororidade entre elas é capaz de salvar vidas.
Nota:

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Varilux

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