Anêmona marca o retorno de Daniel Day-Lewis às telas em uma parceria com seu filho, Ronan Day-Lewis, e já disso nasce um interesse imediato. A proposta intimista sobre vínculos familiares e mágoas enterradas parece promissora, especialmente quando colocada nas mãos de um ator cuja presença costuma preencher qualquer silêncio. No entanto, desde os primeiros instantes, fica claro que a força da performance é maior do que aquilo que o filme consegue sustentar ao redor dela.
O longa acompanha Ray, um ex-soldado vivendo isolado em uma cabana à beira de um litoral britânico, cultivando as anêmonas que herdou do pai — um gesto simbólico que o filme repete com insistência. Daniel Day-Lewis domina a cena com a habitual intensidade, construindo um homem em permanente estado de contenção emocional. Ainda assim, a direção de Ronan parece depender demais desse magnetismo, como se acreditasse que o olhar do ator seria suficiente para preencher lacunas que o roteiro não enfrenta com profundidade.

Quando o irmão Jem surge para levar Ray de volta à família que abandonou, Anêmona tenta expandir seu drama, mas o impacto emocional raramente acompanha o peso das revelações. Há temas potentes — culpa, masculinidade tóxica, abandono — apresentados como grandes epifanias, embora muitas delas soem artificiais, como se cada cena estivesse consciente demais de sua própria importância. O resultado é uma sucessão de momentos intensos que não encontram respiro nem evolução orgânica.
Os conflitos familiares retornam repetidamente sem ganhar novas camadas, e o filme parece preso em um ciclo de mágoas expostas, mas pouco elaboradas. Mesmo quando surgem memórias do passado militar de Ray, o impacto é diluído por explicações que aliviam sua responsabilidade em vez de confrontá-la. Isso enfraquece a própria jornada proposta — um arco de reconciliação interna que nunca se completa de forma satisfatória.
A fotografia busca grandiosidade com paisagens invernais e imagens de contemplação quase espiritual, porém nem sempre a estética dialoga com o que o filme é capaz de transmitir. Em alguns momentos, Anêmona parece acreditar mais em si do que efetivamente entrega, criando a sensação de um drama que se leva muito a sério sem ter o que sustente tanta solenidade. Há beleza, mas também repetição e uma certa previsibilidade emocional.

Ainda assim, é impossível negar que Daniel Day-Lewis continua hipnotizante. Sua presença confere dignidade até aos trechos mais frágeis, e isso impede que o filme desabe por completo. Ele encontra nuances onde o texto não encontra espaço, elevando diálogos que soariam pesados nas mãos de qualquer outro intérprete. É ele quem ancora a narrativa — e talvez quem a salve do esquecimento imediato.
Anêmona é um retorno que desperta curiosidade, mas não alcança o impacto que sugere. Há ambição e sensibilidade, porém faltam delicadeza e equilíbrio para transformar dor em cinema de verdade. No fim das contas, é um filme que se apoia demais em um desempenho monumental para esconder um drama que, apesar de sincero, permanece raso e irregular.




